A singela trilha de Sérgio Britto rumo ao litoral

Estadão

21 de janeiro de 2011 | 18h20

Adriana Dal Ré

Os trabalhos solos, desenvolvidos em paralelo à vida compartilhada em banda, costumam acalentar a alma dos músicos. Mas tais projetos só acabam fazendo sentido quando não reproduzem a matriz sonora em grupo.

Afinal, o que adiantaria fazer mais do mesmo num disco solitário? Se nos dois primeiros álbuns solos, Sérgio Britto, cantor, compositor e tecladista dos Titãs, ainda tateava sua abordagem da música brasileira, agora, em seu terceiro CD, “SP55”, ele assume de vez suas referências de MPB, samba e bossa nova.

Segundo o músico, aos 51 anos, suas incursões fora da banda não lhe obrigam, forçosamente, uma oposição a ela. “Esse é um caminho que venho trilhando”, diz. “Não quero só fazer uma coleção de canções que me diferenciem da sonoridade dos Titãs, mas que também me aproximem dessas canções mais melódicas, com uma brasilidade mais explícita”.

“SP55” foi feito com calma, ao longo de dois anos. Britto aproveitava os dias de folga da banda, geralmente às segundas-feiras, para trabalhar os arranjos, limar algumas guitarras, apurar o que funcionava. Em busca da unidade do CD, letras e melodias tinham de estabelecer a mesma sintonia. “Deixei várias coisas de fora. Não queria fazer um disco como uma colcha de retalhos, com canções que não entraram nos Titãs”.

Sérgio Britto diz que, desta vez, se sentiu também confortável com seu desempenho como cantor. “Costumo ficar insatisfeito com a maneira como minha voz soa nos discos, mas neste trabalho achei que ela saiu mais relaxada. Isso não é uma coisa só minha. Quando um cantor se ouve, acha que poderia ter soado de outra forma”, observa ele.

Pop latino

E assim, sem pressa, o músico foi tecendo singelas crônicas e composições endereçadas a pessoas queridas. Em situações cotidianas, familiares, particulares. Com o produtor Emerson Villani, ele chegou a 13 canções inéditas e três regravações: “Eres”, do Café Tacuba, “Ella Usó Mi Cabeza Como Un Revolver”, de Soda Stereo, e “Iracema”, de Adoniran Barbosa.

Aliás, a escolha das regravações é um capítulo à parte. As duas primeiras são músicas originalmente em espanhol, cantadas com plena segurança por Britto. É que o músico foi alfabetizado primeiro no idioma espanhol.

Nascido no Rio de Janeiro e filho de pai político (Almino Affonso), Britto passou os primeiros anos de vida entre a cidade natal e Brasília. Em 1964, por causa da Ditadura Militar, a família Britto buscou exílio fora do Brasil e viveu por anos em Santiago, no Chile.

Britto e Wanderléa (FOTO: DIVULGAÇÃO)

“O pop latino é ainda desconhecido do povo brasileiro”, acredita. Para ele, a recíproca não é a mesma: nossos vizinhos latinos conhecem melhor a nossa música. “Acho que isso acontece por causa da bossa nova, que se tornou muito popular. A música brasileira virou sinônimo de qualidade”, completa.

No caso de “Iracema”, Britto sabia que estava lidando com um clássico de Adoniran que já ganhou muitas interpretações. Em casa, ele gosta de ficar experimentando algumas músicas na sua voz. Foi o que aconteceu com Iracema. Achou que conseguiu imprimir uma nova versão a ela, longe de ser um cover, praticamente só com voz e violão.

Já para seu material inédito, o compositor sentia que poderia contar com a participação de algumas vozes femininas. Chamou três cantoras, de gerações e estilos diferentes, mas que combinariam muito bem com o tom delicado e lírico de seu projeto. Wanderléa aparece em “Essa Gente Solitária”; Negra Li, em “Aqui Neste Lugar”; e Marina de la Riva, em “Pra te Alcançar”.

As escolhas foram acontecendo, uma a uma. Marina, ele escutou primeiro no rádio, cantando Taí. Depois, foi ouvir um disco dela. “Achei que a voz dela poderia ficar legal com a minha”.

Com Wanderléa, a história foi outra. Britto foi convidado pela própria cantora para uma participação num show dela no interior paulista. Ficaram ensaiando e o músico aproveitou para mostrar algumas músicas de sua autoria para a Ternurinha. “Ela disse que eu tinha um quê de bossa nova. Quando pensei nesse disco, lembrei logo dela”.

O trabalho de Negra Li, ele conhecia menos. Já tinha ouvido falar dela, mas foi o produtor Rick Bonadio quem lhe chamou atenção para a jovem cantora. “Fiquei surpreso com a potência vocal e presença de palco. No Brasil, apesar da nossa tradição de cantoras, parece que não temos um grande nome popular de uma negra”.

As cantoras combinaram bem com esse universo singelo que Sérgio Britto criou em torno de seu novo trabalho. Como um caminho tranquilo rumo ao mar de Juquehy, pela Rodovia Rio-Santos (SP 55).

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: