A saga de 'The Dark Side of the Moon', música a música

Estadão

09 de março de 2013 | 16h32

Gabriel Rolim – publicado originalmente no site Monkey Buzz

Speak to Me começa como uma síntese de tudo o que virá daqui pra frente: sons de máquinas registradoras, vozes confusas, um relógio ao fundo e uma batida de coração que seguirá o disco inteiro. Todos esse sons se juntam e culminam em um grito explosivo que acaba se acalmando através de uma belíssima introdução de guitarra feita por Gilmour.

Começa Breathe – relaxante, transporta o ouvinte para outro mundo enquanto o guitarrista canta de forma sincera e profunda: “Breathe, breathe in the air. Don’t be afraid to care. Leave but don’t leave me. Look around, choose your own ground”. A transição entre as músicas se torna cada vez mais natural e, quando Breathe chega ao final, vemos tendências do que virá logo em seguida.

Uma bateria eletrônica aliada a sintetizadores começa uma das canções precursoras da música eletrônica: On the Run. Instrumental, remete a um aeroporto e uma pessoa correndo para buscar o seu vôo. Os passos são feitos pelo chimbal e gritos esparsos dão a sensação de que tudo não passa de um sonho. Boom, uma explosão acaba a faixa e inicia a talvez a faixa mais inspiradora de todo o disco. Com uma letra sobre a passagem do tempo, Time inicia com uma introdução feita na bateria e teclado. Um metrônomo ao fundo dá a sensação de um relógio funcionando, tique-taque. Tudo vai crescendo em volume, intensidade e quantidade de notas tocadas. Gilmour continua nos vocais, e o seu lirismo é capturado entre uma guitarra swingada e versos como “Waiting for someone or something to show you the way”, e “Home, home again I like to be here when I can. When I come home cold and tired, it’s good to warm my bones besides the fire”. Sua voz é dividida, entretanto, com o tecladista Richard Wright, e as vozes são curiosamente parecidas, deixando tudo fluir de uma forma espetacular. Com um solo inspiradíssimo na guitarra, é uma criação feita por todos os membros, um crédito único em todo o disco o que acaba chamando a atenção.

The Great Gig in the Sky começa sem ser percebida com um composição lindíssima no piano e que aos poucos é acompanhada por uma guitarra em reverb. Vozes que parecem ter sido tiradas de um excerto cinematográfico ou radiofônico são colocadas antes da mais surpreendente e bonita utilização de uma voz. A cantora Clare Tory grita emocionada, um sopro de vida que exala sensualidade e uma vibração jamais vista até então, constituindo a interpretação puramente da alma, Soul da música.

Virando o disco, chegamos ao seu lado B, que inicia com uma máquina registradora, moedas caindo e Money, com uma introdução cromática no baixo de Roger Waters e uma guitarra que fica ecoando com alguns acordes ao longo da canção. A Ganância é abordada de forma crua – “Money, get away. Get a good job with more pay and you’re okay. Money, it’s a gas. Grab that cash with both hands and make a stash” -, uma critica direta ao capitalismo a qual é consumada em um solo explosivo. Us and Them é a grande balada do disco. Conduzida no piano era, segundo a minha mãe e qualquer um que viveu a sua adolescência nesta época, a “música dos bailes”, aquela que você escolhe a sua “paquera” e pega pra dançar junto. Quer mais clima do que uma performance solo de saxofone no meio da música? Coros de vozes trazem ainda mais sentimento à canção.

Any Colour You Like é a grande viagem psicodélica da obra. Toda instrumental, tem um sintetizador etéreo que passa de um ouvido a outro. A banda parece transcender e tem um “entrosamento” ímpar, parecendo perceber o que cada um quer fazer o seu instrumento. Ao final, a jam carregada de improvisação traz um acorde limpo de guitarra e inicia uma canção que aborda o lunatismo sendo fortemente inspirada no antigo líder e fundador da banda, Syd Barret. Brain Damage põe pela primeira vez nos vocais o baixista Roger Waters, versando sobre o seu amigo que acabou se perdendo em sua própria loucura. “The lunatic is on the grass. Remembering games and daisy chains and laughs”.

O mesmo continua no papel e faz a transição natural para a música que diz o porquê do nome do disco. Eclipse é, na verdade, uma constatação natural após o uso de algo droga alucinógea de que tudo é lindo. “All that you touch. All that you see, All that you taste, All you feel”. Antes de acabar essa obra prima, Water versa sussurrando “There’s no dark side of the moon really. Matter of fact it’s all dark”. Fim.

É difícil não se emocionar a cada vez que o disco é colocado para tocar, assim como é quase impossível não se apaixonar logo na primeira escutada. Atemporal, genial, inspirado, único – poderia ficar versando uma série de adjetivos positivos e correlacionados, mas nada poderia impressionar mais do que aproveitar cada detalhe desta obra máxima. A sua idade indica que o tempo passa, e assim como na letra de Time, “The sun is the same in a relative way but you’re older”, o Sol continua o mesmo, você está mais velho mas continua soando belo como se tivesse sido feito para este momento.

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