A revolução poética de Gil Scott-Heron

Estadão

04 de fevereiro de 2012 | 17h00

Roberto Nascimento

Gil Scott-Heron não inventou o rap. Mas combinou ritmo, poesia politizada e o pugilismo retórico do signifying, um tipo de disputa poética comum nos guetos afro-americanos dos anos 60 e 70 (prima distante do martelo agalopado, dos cordelistas nordestinos), em um híbrido musical que é amplamente considerado como um dos protótipos do gênero. Por isso, o título de padrinho quando se explica a relação do cantor, poeta, escritor e ativista morto no ano passado, com o hip hop.

O que faz de sua tradução da inquieta periferia negra nos anos 70, em manifestos camuflados de música como Winter in America, ou manifestos feitos de rajadas silábicas, como The Revolution Will Not Be Televised, patrimônio histórico norte-americano.

A música, no entanto, pode limitar a figura esguia do pirulão Scott-Heron a se cristalizar em nossas mentes como a de um moderno bluesman, de voz surrada e discos de soul invariavelmente dançantes, quando uma compreensão de sua importância cultural é inseparável de suas letras e prosa.

Uma leitura de The Last Holliday: A Memoir, suas memórias póstumas lançadas na semana passada nos Estados Unidos e disponíveis no Brasil via Kindle, nos aproxima de sua mente literária, mostrando sua tranquilidade narrativa, traço de um hábil contador de histórias, e sua essência equilibrada entre o intelectual e o brejeiro. Isto enquanto o autor faz um giro por sua infância, conta sobre seu processo criativo, a gravação de seus discos mais importantes e comenta sobre a sociedade americana com o olhar sábio de quem presenciou terremotos culturais.

Entre os heróis de Scott-Heron estavam figuras como o juiz Thurgood Marshall, seu candidato a “homem do século”, e o escritor Langston Hughes, influente na literatura afro-americana por seu romance O Homem Invisível, que serviu de modelo para o cantor por ter adotado o blues como uma forma de fazer poesia, transformando-o em literatura.

O próprio Scott-Heron certa vez definiu seu trabalho como de um bluesologista, um músico negro contemporâneo vigorosamente atento às raízes de sua cultura, e às formas com que estas se manifestavam no contexto atual, um diálogo entre o popular e erudito central à sua obra.

As origens deste interesse eram humildes. Scott-Heron cresceu no Tennessee, em uma comunidade segregada, embora não desprovida de educação. As mulheres foram responsáveis pela sua criação (no seu último disco, I’m New Here, Scott-Heron canta “eu fui criado por mulheres que me transformaram em um homem”). Eram mulheres fortes.

De acordo com o próprio, sua avó, com quem morou durante a maioria de sua infância, e chegou a chamar de mãe, não abaixava a cabeça para as leis de segregação que separavam negros de brancos em espaços públicos como estações de ônibus, ou impediam negros de comprar no crediário.

A irreverência tem ecos em um episódio do livro em que, estudando em um colégio particular, Scott-Heron é indagado pelo diretor, de forma arrogante, como se sentiria se seus colegas andassem de limusine, e ele responde: “Da mesma maneira que você, que também não anda de limusine”.

Mesmo com pouco dinheiro, a educação era fundamental e a avó juntou dinheiro para pagar a faculdade de quatro filhos. Assim se deu a formação de Scott-Heron, que se mudou para Nova York durante a adolescência, cursou escola pública, mas depois de mostrar considerável talento literário, conseguiu uma bolsa para estudar em um colégio particular.

As memórias passam pelos anos de formação acadêmica com descrições exaustivas, embora bem escritas, sobre sua vida escolar, e tornam-se mais interessantes à medida que o autor conta sobre sua parceria com Brian Jackson, o multi-instrumentista, compositor e arranjador por trás da sonoridade de seus discos.

Na época, os dois buscavam uma forma de combinar suas influências variadas (poesia e soul, no caso de Scott-Heron, erudito e jazz no caso de Jackson) e chegaram ao híbrido de jazz, funk e spoken word que consta nos primeiros álbuns de Small Talk at 125th Street, Pieces of a Man e Winter In America.

Sua canção mais famosa, The Revolution Will Not Be Televised, que abre Pieces of a Man, marcou a consagração da fama regional que obtivera com 125th Street. Sobre a gravação de Winter in America, seu outro clássico, Scott-Heron conta: “As pessoas olhavam para a gente como se fôssemos psicopatas, pois nós falávamos sobre todas as vertentes da comunidade negra. E nem todas estavam protestando. ”

O livro estava no forno desde 1994, quando surgiu como um projeto em que o autor recontaria suas experiências ao abrir uma turnê para Stevie Wonder. Na época em questão, o músico fazia campanha para que o aniversário de Martin Luther King Jr., no dia 15 de janeiro, virasse feriado nacional.

O ativismo de Stevie impressionou Scott-Heron profundamente, e é a causa de uma certa incongruência no fluxo do livro, que mistura fragmentos autobiográficos de Scott-Heron com as experiências durante a turnê. Enquanto é intrigante ler sobre o respeito de um grande músico pela arte de outro, as observações sobre Stevie constam mais como um diário de uma rotina musical, do que uma análise aprofundada.

Em defesa de Scott-Heron, não se sabe se seu intuito era publicar a mistura de memórias autobiográficas com as da turnê de Stevie. Mas era parte de um projeto feito durante anos de ócio criativo, em que o músico, que já havia completado o que entrou para a história como as peças mais importantes de sua obra, teve problemas com crack, foi preso por porte de cocaína e chegou a ser indiciado por bater em uma namorada.

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