A psicodelia sobre rodas dos Beatles

Estadão

10 de novembro de 2012 | 06h50

Bento Araujo – ESPECIAL PARA O ESTADO  DE S. PAULO

Durante alguns dias de 1967, os Beatles carregaram uma equipe de filmagem, família e um elenco de atores em um ônibus psicodélico. O resultado foi o terceiro filme deles, que agora ganha versão restaurada com muitos extras em DVD e Blu-Ray.

Depois de A Hard Day’s Night e Help!, os Beatles queriam ir além. O desejo era rodar algo que estivesse em sintonia com o mundo jovem do período, aquele do Verão do Amor. Richard Lester, o diretor dos filmes citados, declarou que gostaria de ver o quarteto se autodirigindo em seu próximo filme, mais ou menos como faziam em seus discos.

Paul McCartney não só levou o projeto a sério como vendeu, com alguma dificuldade, os tickets da excursão mágica e misteriosa para os companheiros de banda.

“Fomos improvisando. Pensávamos que seria uma boa fazer apenas um filme, ter uns projetos e ir para alguns lugares filmá-los. Eu basicamente disse aos rapazes: ‘Tenham algumas ideias que tentaremos fazer algo com elas’.” É assim que Paul começa um dos apetitosos extras da nova versão de Magical Mystery Tour (MMT), que acaba de chegar às lojas.

Só pelos extras já valeria a aquisição. Além de Paul dissecando a obra, há making of, cenas inéditas, entrevistas recentes com Paul e Ringo, novas edições das performances musicais e um promo de Hello Goodbye. Outra surpresa é o Traffic, de Steve Winwood, encenando Here We Go Round The Mulberry Bush por encomenda dos Beatles, mas a gravação não foi aproveitada na edição final.

Resenhar MMT é como tentar explicar o inexplicável. Como filme, é uma atrocidade, tanto técnica como narrativa, apesar de Spielberg citá-lo como influência de sua geração de cineastas. Como apenas mais um artefato da carreira do maior grupo pop do mundo, é divertido. Entretenimento garantido para quem assistiu em 1967, ou vê agora pela primeira vez.

Paul encara MMT como um espécie de A Hard Day’s Night “on acid”, em que elementos daquele primeiro e ingênuo longa ecoam no decorrer da trama. O amadorismo na produção de Magical acabou se tornando um de seus charmes, ou seu maior trunfo.

 Os atores foram escolhidos às pressas, com aqueles aptos a improvisar levando vantagem. Assim, há atuações surpreendentes, como a de Ivor Cutler encarnando Buster Bloodvessel e Victor Spinetti como um mal-encarado oficial do Exército. Em favor do teor fantástico da trama, Paul nem se deu ao trabalho de usar algo básico, como uma claquete. Por essa razão, a edição do filme tornou-se caótica e atrasou o lançamento em pelo menos dez semanas.

Mesmo com a atuação sempre divertida de Ringo, com um George introspectivo e John brilhando como um encardido garçom italiano, os pontos altos de MMT são as composições criadas especialmente para o filme.

 I Am The Walrus é o melhor de todos esses segmentos, em que o surrealismo da canção casou perfeitamente com o surrealismo das imagens. Um carnavalesco bloco de ‘homens-ovo’ e os músicos usando máscaras de animais são performances visuais gravadas pelos Beatles em I Am The Walrus, o que realça a importância do filme.

A sequência de The Fool On The Hill foi filmada nas montanhas do Sul da França, durante uma única manhã, e traz Paul beatificado como o próprio tolo de sua canção. Em Blue Jay Way, George surge como o mais espiritual integrante, rodeado de velas e cítaras.

A cena final baseada em Busby Berkeley, com You Mother Should Know, quase não aconteceu, por causa de um gerador que não funcionava direito enquanto a sequência era rodada num hangar.

MMT raramente foi exibido na íntegra desde a sua transmissão original da BBC, em preto e branco, em 26 de dezembro de 1967. “O filme se tornou um improviso excêntrico, que deixou o público confuso na época. Com o passar dos anos, Magical Mystery Tour surge como uma agradável lembrança daquele período de nossas vidas”, escreve Paul no encarte do DVD.

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