A precisão e a genialidade do mais velho dos Marsalis

Estadão

31 de julho de 2011 | 17h13

Jotabê Medeiros

Em 1957, Duke Ellington fez uma homenagem a William Shakespeare, gravando o disco Such Sweet Thunder, no qual compôs peças sobre personagens-chave do bardo inglês e sobre seus próprios músicos. Um estudo turbinado por fantásticas harmonias, propulsão rítmica, poderosa polifonia.

No mês passado, 54 anos depois daquele disco, o trombonista Delfeayo Marsalis – irmão mais velho e menos midiático que Wynton e Branford e do caçula, o baterista Jason – trouxe à tona uma releitura do álbum de Duke.

Sweet Thunder (Duke & Shak) combina swing, blues e jazz “old school”, com músicos formidáveis – Mulgrew Miller, Victor Goines, Reginald Veal e os irmãos mais chegados, Branford e Jason. Ele tocou em julho com seu sextetono Bourbon Street, em São Paulo, seu primeiro concerto no Brasil em 12 anos (esteve no Free Jazz de 1999, na banda de Nicholas Payton).

No que uma atividade, tocar sem regras, ajuda na outra, a concisão de uma orquestra?

Tudo se resume a uma só palavra: troca. Músicos de jazz, em geral, são muito competitivos. As jam sessions ajudam a fomentar o espírito cooperativo, em que um dá lugar ao outro de forma espontânea. Outra coisa é que ajuda a aproximar diferentes gerações, a manter a tradição de New Orleans ativa. Não se deve esquecer que esse é um compromisso histórico.

Os músicos de New Orleans, de Louis Armstrong a Trombone Shorty, são excepcionais. Mas o que é que os une, em sua opinião? Qual é o ingrediente especial comum à música do Sul?

Diria que a celebração. Os aspectos que envolvem a música celebratória, como a alegria, a disposição de fazer música por prazer, para causar prazer.

O disco que você regravou de Duke Ellington, de 1957, tem algumas diferenças com o original. Por exemplo: Ellington gravou com uma orquestra de 15 músicos, você usa um octeto. Por quê?

Meu irmão Wynton, quando grava Duke Ellington, acha que tudo deve ser feito exatamente como no original. Eu acho que é possível introduzir elementos modernos, deixar que a música conduza à improvisação, abrir para os solos, e ainda assim manter a essência da ideia original.

Ellington abraçou uma proposta que muitos consideraram pretensiosa, por tentar abarcar a literatura de Shakespeare. Vendo a partir de hoje, como você definiria essa proposta e o resultado?

Penso que, se havia a intenção de se fazer uma suíte a partir da obra e dos personagens de Shakespeare, não havia ninguém mais qualificado naquele momento para levar adiante o projeto que não fosse Duke Ellington. Ele encarou a ideia de concentrar tudo em 12 movimentos, como se musicasse monólogos de Shakespeare, recriando aquilo em larga escala.

Faz muito tempo que o sr. não vem ao Brasil. Lembra de algo da sua última passagem por aqui?

Estive em São Paulo entre 1993 e 1994, como solista. Mas acho que a última vez foi mesmo na banda de Nicholas Payton. Adoro o seu país, seria bacana se pudesse ir com a Uptown Orchestra. Sei que é difícil, é um grupo grande, fica caro, e tem também o timing da orquestra – nós agora vamos gravar um disco e só depois excursionar.

 

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