A nova relação do fã com a música é chave do negócio

Estadão

09 Setembro 2013 | 07h00

Marcelo Moreira

Gostar de música todo mundo gosta. Ter apreço por ela e pela arte em geral é outra coisa, e é artigo em falta no mercado. De forma simples e certeira, um médico paulistano apaixonado por blues definiu a grande dificuldade de se fazer música autoral na atualidade, em qualquer lugar, em tempos de internet dominando as vidas e o tempo, e com as facilidades dos downloads legais e ilegais.

Espectador de olhos vidrados na apresentação da dupla Celso Salim e Rodrigo Mantovani na última quinta-feira, no restaurante Si Señor, de São Bernardo do Campo (Grande São Paulo), lamentava o profundo desprezo que a imensa maioria dos clientes pela boa música ao vivo. Renato Lima Sobrinho está quase chegando aos 50 anos d idade, e estava chocado com o que considerou falta de respeito a dois dos melhores músicos brasileiros do gênero.

Ninguém é obrigado a dar atenção a quem quer que esteja tocando em um restaurante qualquer, é óbvio, mas a tristeza e o desabafo de Lima soa como uma constatação, ainda que dominada pelo saudosismo: parece que as pessoas não gostam mais de música hoje como gostavam antigamente. Pouca gente nos dias de hoje se importa com eventos interessantes – e gratuitos – como o do Si Señor: assistir de graça, sem couvert artístico, dois instrumentistas do primeiro time do Brasil.

Geralmente este tipo de conversa envereda pelo caminho da saudade depressiva, do tipo “nos anos 70 é que era bom , quando tínhamos música boa de verdade e os bares e casas de show viviam cheios”. Obviamente, sempre alguém vai lembrar como era bom admirar as capas de LPs, os encartes, as dificuldades para obter lançamentos importados e ouvir rock do bom nas emissoras de rádio da época.

Tudo isso pode ser verdade para muitos, mas a questão levantada pelo médico é mais profunda: a mudança radical de hábitos das pessoas ao ouvir música, a relação diferente do jovem de hoje de consumir cultura e, mais complicado, o tipo de relação que foi criada com produtos artísticos face à escalada vertiginosa da tecnologia.

“Ninguém se preparou para as mudanças dos últimos 20 ou 30 anos. E nem tinha como, na minha opinião. O fato é que o consumidor/ouvinte hoje, principalmente os mais novos, têm uma relação diferente hoje com a música. Pior ou melhor? Depende da idade de quem analisa (risos). O fato é que a relação mudou e nós, músicos, precisamos criar maneiras e descobrir formas de atrair a atenção deste novo consumidor. Indo ao extremo, todos os músicos hoje têm o desafio intenso de fazer com que o jovem volte a gostar de fato da música”, diz Pepe Bueno, baixista da banda Tomada.

O sentimento geral é de que o público hoje não tem o mesmo apreço pela música como no passado recente. As facilidades da vida moderna tornaram cômodo ouvir música em diversas plataformas sem necessariamente recorrer à compra, física ou digital. Por conta disso, ou também por isso, diminuiu a disposição do público de procurar novidades e ir a shows.

“Às vezes percebo uma mistura de comodismo e exigência alta demais no público atual. Como há a sensação de que as novidades estão quase todas na internet, muita gente acha que não há mais o que ver, e que não faz sentido pagar o que quer que seja para ver uma banda nova ou alternativa em bar ou casa de show. E a percepção de quem vive de música é a de que, em grande parte, o público atual está menos apaixonado e obcecado por seus artistas favoritos. Está gostando menos de música? Seria exagero. Está gostando de uma forma diferente”, afirma Bueno, que quebra a cabeça para encontrar maneiras de despertar o público e tirá-lo do conforto.

Celso Salim e Rodrigo Mantovani tocam na última quinta-feira no Si Señor, em São Bernardo do Campo

Já está bem disseminado o conceito de que as pessoas hoje têm um relacionamento diferente com a música, com explicações variadas e muitas teorias. Está mais difícil convencer quem gosta de música – e quem gosta de rock, em particular – a pagar, ainda que seja pouco, para ver um artista novo, ainda que seja um conhecido. Bandas novas encontram um cenário em que o público está pouco estimulado a ver um show e menos ainda a consumidor um CD com preço baixo ao final da apresentação.

“Está sendo um desafio cada vez maior conseguir a atenção de um público novo. A concorrência é muito grande, tem muita banda boa na praça e não são tantos os locais para tocar. E ainda tem a quantidade enorme de shows internacionais neste ano. banda que tem público fiel sofre um pouco menos, mas ainda assim é uma luta”, cometa Ricardo Schevano, da banda Baranga.

Qualidade x interesse

Críticos musicais sustentam que o interesse pelo rock, especificamente, diminuiu por conta da queda de qualidade dos trabalhos após os anos 90, entre outras coisas. Faltam hits e músicas comercializáveis que atinjam uma parcela maior da população, sem o pedantismo e a auto-indulgência que predominaram por muito tempo nas bandas nacionais de rock.

O argumento explica em parte a crise, em especial no pop rock nacional, mas não justifica o desinteresse quase que generalizado pelo novo, já que existem boas bandas no mercado, e desde os anos 2000. Um hit não tem como virar hit se fica no underground.

O pop rock nacional perdeu espaço porque não tem o perfil imediatista que se tornou praxe no mercado fonográfico brasileiro do século XXI. Quem sucumbiu à linha de produção de massa de “supostos” hits amarga o ostracismo pouco tempo depois de um rápido boom, como é o caso das bandas emo. Restart, NX Zero, CPM 22 e bandas correlatas despencaram porque que aderiram ao imediatismo do mercado sem ter qualidade suficiente (ou maturidade, tanto na idade quanto no trabalho em si), apostando em melodias fáceis e grudentas e letras infantis e fracas. Foram rapidamente trucidados e engolidos pela “máquina”, devidamente digeridos e praticamente descartados.

O jornalista e escritor Ricardo Alexandre, autor do ótimo “Dias de Luta”, sobre o rock nacional dos anos 80 e suas consequências, aborda o assunto de forma interessante em seu blog no MSN.com. Por que o rock brasileiro não produz mais grandes hits? A pergunta deverá ser um dos títulos de um capítulo de seu próximo livro, também abordando o rock nacional, “Cheguei bem a tempo de ver o palco desabar”.

Também em busca de explicações para a vertiginosa queda do pop rock no gosto do jovem contemporâneo, ele especula sobre algumas circunstâncias que podem ser relacionadas, direta ou indiretamente, à maneira como se houve música hoje e o tipo de apreço que as pessoas atualmente têm pelos artistas preferidos e pelas canções:

a) A internet facilita a criação de microcelebridades. Nos anos 80 e 90, qualquer banda precisaria passar pelo esgana-gato de encarar um público que não era o seu, na casa noturna, na FM, no programa da TV aberta. Com o surgimento das redes sociais, qualquer banda maluquete inviável arregimenta “fãs”, baba-ovos e seguidores que compactuam de seu mesmo compromisso com o fracasso. E a sensação de sermos microcelebridades anula qualquer necessidade de comunicar-se com um público maior.

b) A crise de oportunidades leva todo mundo a se fechar. Não dá para negar que o século 21, a reboque a inversão de expectativas em relação ao mercado fonográfico, recebeu todo o universo pop como uma grande crise de oportunidades. A revista Bizz fechou no ano 2000. O caderno Zap! durou até 2002. As rádios de perfil roqueiro acovardaram-se e pouco lançavam. A MTV “abriu” sua programação para os gêneros mais populares antes de entender que a saída era des-musicalizar sua programação. As casas de shows médias das grandes capitais fecharam. Ou seja, sem as plataformas de dez anos atrás, diversos talentos surgiam e não tinham retorno estético para seu trabalho, nem espaços mais ousados editorialmente para se lançar. A única opção artística tornou-se o underground e a movimentação lateral (festivais, eventos regionais). E o underground, como sabemos, não só não precisa do pop, ele o repele.

c) As facilidades tecnológicas. Se nos anos 70 e 80 você precisava negociar dolorosamente com uma grande gravadora e submeter seu trabalho a uma série de indivíduos de camisa pólo e sapatênis, nos anos 2000 os bons estúdios tornaram-se cada vez mais acessíveis, até chegar ao ponto de qualquer um conseguir gravar em seu próprio notebook. Você pode, como João Marcello Bôscoli, acreditar que o grande artista precisa naturalmente saber comunicar sua arte pura ao grande público. Eu duvido. Se me deixarem criar livremente, serei sempre umbigocêntrico, auto-referente e produzirei música para mim e meus amigos que pensam como eu. É exatamente o que as boas bandas de rock fazem atualmente.

d) Os millenials. Aqui vou chutar ainda mais alto, em direção a uma característica geracional. E acredito que meus leitores que ocupem cargos de gerência ou direção em empresas das áreas de humanas hão de entender: A chamada geração Y, criada sob as regras do self-service, das entregas em tempo real, da internet, das escolas construtivistas, do antropocentrismo e dos três itens acima, não é chegada à parte chata e empírica de todo trabalho. À parte trabalhosa que coloca qualquer ideia inspirada de pé. E o rock, eminentemente jovem, funciona de acordo com as regras da juventude de seu tempo. Pop é inspiração, mas também é trabalho. Chega a ser engraçada a quantidade de vezes em que Paul McCartney em sua biografia Many years from now descreve clássicos dos Beatles que John Lennon começou e abandonou e ele, Paul, tomou, trabalhou e retrabalhou até que se tornasse um clássico. John é o impulso, o rock’n’roll. Paul é o trabalho, a carpintaria, é o pop. Sem trabalho, não existe sucesso.

A música ainda realmente importa?

A música – e parte expressiva da cultura em termos gerais – está se tornando descartável e progressivamente perde valor agregado. Há quem diga que isso não é necessariamente ruim, ou seja, que o novo modo de se relacionar com produtos culturais e consumi-lo faz parte da evolução natural do mercado e da vida em si, e que os jovens estão muito mais antenados e enfronhados nas novas plataformas tecnológicas, sabem exatamente o que querem e como obtê-los, com a presença mínima ou nenhuma de intermediários. E essa geração tem a firme convicção de que não precisa pagar por um bem cultural, por “não fazer sentido” em tempos de internet, onde o acesso é rápido e frequentemente de graça – e frequentemente ilegal.

Também existe a corrente de artistas e especialistas que identifica um certo comodismo e falta de interesse pela cultura em si. Os índices de vendas de livros não crescem, e as listas de mais vendidos ainda são dominadas por obras de auto-ajuda de qualidade questionável. Ainda que a tiragem dos jornais não tenha registrado uma severa queda nos últimos dez anos, ainda assim não cresce, como se verifica também no mercado de revistas. Na música, a terra está arrasada, com a falência do modelo de negócios focado em gravadoras. Como convencer uma geração inteira que a valorização da cultura é uma das portas – se não a mais importante – para o conhecimento?

O desafio do músico autoral no século XXI é descobrir como o ouvinte/consumidor se relaciona com a música e despertar nele a importância  e o valor do bem cultural chamado canção/álbum. É despertar nele o prazer de apreciar um bom show, ainda que no começo de seja de graça, para depois tentar atraí-lo para uma nova etapa, que é estimular o apreço pela atividade cultural, aparentemente perdido em meio à velocidade da vida moderna movida a www.

Não faz sentido falar em reeducação, pois soaria pedante, mas é certo que os músicos iniciantes, os do underground e os que já têm carreira, mas nunca atingiram o estrelato, terão de se virar com mais empenho e esforço em um terreno inóspito: terá de resgatar um ouvinte saciado e, eventualmente, acomodado; terá de convencê-lo de que é interessante, prazeroso e produtivo consumir cultura; terá de instigá-lo a ser curioso e a ser exigente, em tempos em que a maioria acha que é mais fácil e barato pegar tudo de graça na internet.

Música de qualidade não é mais suficiente para atrair a atenção do ouvinte/consumidor do século XXI. O problema é que ainda ninguém encontrou uma maneira de furar o bloqueio comercial. Todos os dias surgem informações no Brasil, na Europa e nos Estados Unidos sobre tentativas de negócios e “soluções tecnológicas” para atingir massivamente o ex-fã de música.

Os resultados ainda são vistos com cautela, quando não com desânimo e frustração, mas existe gente procurando incessantemente um caminho para construir algum tipo de negócio viável que permita uma nova “indústria” sobreviver sem extorquir o consumidor e nem solapar o artista. Mas tudo passa pelo entendimento de como quem gosta e ouve música hoje se relaciona com esse “objeto” e, se possível, “medir” o apreço e o valor que esse consumidor dá à música. Os tempos continuarão difíceis para quem quer viver de música autoral.

AMANHÃ VOLTAREMOS AO TEMA COM UMA ESPÉCIE DE MEA CULPA DE ALGUNS MÚSICOS SOBRE A MÚSICA ATUAL E SUA DISSEMINAÇÃO, BEM COMO A PERCEPÇÃO DE ARTISTAS SOBRE O EVENTUAL BECO SEM SAÍDA EM QUE A O MERCADO ATUAL SE ENCONTRA.