A nostalgia pop do saxofone

Estadão

29 Janeiro 2012 | 16h01

Roberto Nascimento

Ele surgia lá pelo terceiro minuto do hit. Resumia o gesto do intérprete, botava a cereja na produção. Desencadeava o que, de ali em diante, seria prazer culposo para alguns, catarse para outros. Era o craque empregado aos 30 minutos do segundo para decidir o jogo, o às na manga dos sucessos de Sade e George Michael, Men at Work e Dire Straits.

No universo do chic oitentista, o solo de sax era rei. Primo fino da esmerilhada guitarrística, foi relegado por anos aos escritórios de dentista e aos supermercados, às trilhas sonoras de frustrantes chamadas para serviços de atendimento ao consumidor. Virou sinônimo de pieguice, uma relíquia aguada nunca distante do nosso alcance (até hoje, é só ligar na Antena 1 e aguardar alguns minutos para ouvir um tenor em ação).

Eis que, em 2011, o sax ressurge das cinzas para colorir alguns dos hits mais comentados do ano; um fênix da cafonice oitentista reciclado com cinismo por alguns, mas também por ser a peça central de uma fórmula pop que surte efeito proustiano nos ouvidos de quem cresceu nos anos 80.

A retomada do sax começou com o disco Kaputt, do Destroyer, que seria um dos mais comentados (terminou 2011 em segundo lugar da lista de melhores da Pitchfork).

Com produção que se equilibra entre o soft rock e o smooth jazz, o enésimo trabalho de Dan Bejar abusou de referências à primeira metade dos anos 80, época em que Sade e sua clássica Smooth Operator praticamente definiram o padrão de elegância e sofisticação no pop. Ao final de Chinatown, uma das melhores, lá está o sax, cumprindo uma função semelhante ao que fizera no hit de Sade, com um improviso como um devaneio flutuante que se estica até o fim da música.

O próximo augúrio da renascença de altos e tenores surgiu logo mais, no ótimo disco Kiss Each Other Clean, do Iron and Wine. O intuito do projeto de Sam Beam foi diferente: sua paleta sonora não ambicionava fazer referência a outros tempos do pop, apenas produzir folk rock acústico com um verniz límpido. Mas o tenor tece riffs de blues aqui e acolá, em Big Burned Hand, como fazia na época em que era imprescindível a qualquer banda de R&B.

Era só o começo. O ano indie ainda seria dominado pelo hit Midnight City, da banda francesa M83, cujo solo de sax, tocado por Ian Young, explode depois do segundo refrão na melhor tradição de efervescência oitentista (vide Time of My Life, do filme Dirty Dancing). 2011 também veria Kenny G tocar com os hitmakers pseudoindies Foster the People e teria solos de sax em canções de Lady Gaga, Bon Iver e The Rapture, que toca em São Paulo, no Cine Joia, dia 25.

Tanto improviso não deve ser tratado com descaso. Há pouco tempo, qualquer resquício de técnica ou expressão individualista através de um solo – seja de guitarra, sax ou bateria – era desdenhado pelos círculos mais modernos do rock (vide resenhas de críticos que hoje elogiam Destroyer e Bon Iver, ou vide a ausência de virtuosismo em qualquer hit desde a metade dos anos 90).

Era o efeito de uma ressaca de infâncias ao som de Led Zeppelin e Guns n’ Roses. Mas, como tudo passa, no zeitgeist atual, esta associação do solo de guitarra com a figura machista e desgastada do guitar hero continua, mas está cada vez menos saturada (o disco Father, Son & the Holy Ghost, do Girls, é exemplo disso).

Em paralelo a essa diluição de conceitos, solos de sax deixaram de ser um portal para o que havia de mais cafona nos anos 80, e transformaram-se em uma madeleine que nos transporta à mesma época com um olhar diferente (uma tese explicada com elegância pelo crítico Simon Reynolds em seu livro Retromania).

Talvez o caso mais emblemático do sax em 2011, ou certamente o que melhor servirá a futuros musicólogos, seja o do solo de Clarence Clemons em Edge of Glory, de Lady Gaga. Eternizado parceiro de Bruce Springsteen na E Street Band, Clemons, que morreu em junho, foi o mestre absoluto da forma.

Qualquer crítica à pieguice de solos de sax passa longe de sua sinceridade musical: Clemons era a verdade. Com Springsteen ou no excelente hit de Lady Gaga, sua presença era transformadora. Neste caso, definiu o ano.