A merecida supervalorização de (alguns) produtores

Estadão

15 de maio de 2013 | 16h59

Marcelo Moreira

Técnico ganha jogo de futebol? Às vezes sim (tem gente que diz que é quase sempre). Produtor musical arruma a casa e consegue fazer banda chegar ao sucesso? Infelizmente sim. São vários os críticos musicais e mesmos músicos que criticam o que consideram excesso de produção em vários álbuns recentes, bem como a supervalorização do cara que comanda os botões.

O Combate Rock decidiu entrar nesta discussão e começou com a publicação de um ótimo texto de Miguel Sokol, colunista da revista Rolling Stone Brasil. Discordamos de parte dele, e mostramos aqui a importância do profissional que comanda as gravações e, dependendo do grau de liberdade, direciona completamente o som do artista. E vamos fazer isso pelas declarações de quem toca e de quem produz – e de quem faz os dois.

Ainda hoje se discute se é possível medir a importância de George Martin no trabalho dos Beatles, por mais que isso ainda cause certo incômodo em Paul McCartney. A questão me parece um pouco deslocada, já que o som dos Beatles também necessariamente o som de Martin.

O homem dos botões do quarteto de Liverpool recebeu moleques vindos da cidade do norte e conseguiu formatar seu som intenso e pouco sofisticado do começo, para depois viabilizar a criatividade imensa dos quatro músicos, cada vez mais enfronhados nas artimanhas de estúdio. Martin foi crucial para o trabalho do grupo – é só comparar com “Let It Be”, o último lançamento dos Beatles e produzido por Phil Spector.

A diferença é gritante. Malcolm Young, guitarrista e cérebro do AC/DC, comenta na biografia da banda assinada pela jornalista Susan Masino a importância que o produtor zambiano Robert “Mutt” Lange teve ao assumir a produção da banda a partir de de Highway to Hell”, de 1979.

“Tínhamos nosso som e gostávamos de trabalhar com Harry (Vanda) e George (Young, irmão mais velho), mas chegou uma hora que tínhamos de testar outras coisas. E Lange foi o cara certo na hora certa. Captou o som do AC/DC de uma forma diferente e vigorosa. Não foi fácil trabalhar com ele, mas ele teve importância ao produzir nosso discos.” Lange ainda produziria “Back in Black” (1980) e “For Those About to Rock” (1981).

O Def Leppard também não tem o que reclamar. De grande ícone da New Wave of British Heavy Metal, no começo dos anos 80, passou a atração mundial, vendendo zilhões de cópias como “High’n’Dry” (1981), “Pyromania” (1983), “Hysteria” (1987) e “Adrenalize” (1992). Lange foi o produtor de tais álbuns e seu trabalho elevou o patamar da banda.

“Conseguimos uma sonoridade única e diferenciada. Houve críticas, mas as vendas dos álbuns falam por si”, defendeu o vocalista Joe Elliott em uma entrevista à revista Metal Hammer nos anos 90. Enquanto o AC/DC teve os álbuns com Lange elogiados por quase todos, o Leppard foi malhado pela crítica por conta do que foi considerado excesso nas timbragens e na adição de instrumentos e coros. “Pasteurização” e “americanização” foram os adjetivos mais leves. Só que a banda virou um fenômeno comercial absurdo.

Quando o produtor musical é um aliado da banda, as coisas geralmente caminham bem, como o casamento Martin-Beatles. Em outros casos, quando o poder do profissional (ou da gravadora) é excessivo, tragédias acontecem. O Van Halen costumava ser vítima da influência lesiva de dirigentes de gravadoras.

Por força de contrato, a Warner, durante algum tempo, poderia impor ou vetar produtores – são frequentes os boatos de que até mesmo na escolha de vocalistas a  empresa teria apitado, quando da saída de Sammy Hagar, em 1996. Para quem trabalha no meio, hoje um bom produtor pode fazer a diferença entre um lançamento razoável e inexpressivo e um CD diferenciado e instigante.

Um exemplo é Bob Rock, que produziu o Metallica neste século XXI. É o profissional que pensa, que formata e que viabiliza o som pensado pelos músicos. Se for músico, melhor ainda. “Roger Glover, do Deep Purple, mudou o nosso conceito de gravação e captação. Ele é detalhista e incansável. Ajudou demais o Nazareth quando assumiu a produção de alguns álbuns nossos, desde coisas simples, como posicionamento de microfones, até a busca de timbres diferenciados e criativos de guitarra e baixo”, disse Dan McCafferty, cantor do Nazareth, em 2007, durante uma passagem por São Paulo.

“Durante muito tempo nos anos 2000 ficou a sensação de que a tecnologia facilitou no sentido de simplificar. Qualquer banda achava que poderia se autoproduzir e ficou uma ideia errada no mercado de produção era só gravar e equalizar. Quando ficou claro que as produções de bandas de rock e mesmo de outros estilos eram parecidas e ruins é que recomeçou, aqui e no exterior, a procura por bons profissionais”, diz Amleto Barboni, guitarrista de blues paulistano e requisitado produtor.

Edu Falaschi, vocalista do Almah e também produtor, observa que hoje muitas bandas procuram, primeiro alguma com experiência em produção ou mesmo um engenheiro de som competente antes de decidir por estúdios. “Um engenheiro de som ajuda, claro, mas o que faz diferença é o ouvido e a experiência. Mesmo grupos que já têm bagagem no underground e que já gravaram álbuns percebem que um produtor pode ser um grande aliado e melhorar bastante um produto não só com questões técnicas, mas também pelo feeling e pela busca em detalhes que normalmente passariam despercebidos.”

Barboni ultimamente usa o termo “assessor artístico” para designar profissionais que, como ele, gerenciam uma gravadora e trabalham também como produtores. “A parceria entre produtor e músicos é fundamental para ter um resultado mais orgânico, para evitar aquele tom impessoal. Todos saem ganhando.”

Andria Busic, baixista e vocalista do Dr. Sin, pilota o estúdio Sonata 84 em São Paulo, onde produz artistas dos mais variados, entre eles a sua própria banda e a carreira solo do irmão e companheiro de banda, o baterista Ivan Busic. É outro profissional que não apenas mexe os botões ou equaliza o som. “Quem produz tem de se envolver com o trabalho, dizer o que fica bom e como fica bom, dar sugestões, e até mesmo insistir para que ocorram mudanças, O bom produtor fundamenta suas opiniões, sabe do que está falando.”

Ainda que os tempos atuais estejam valorizando bastante os produtores, a sensação é de que a valorização tem sua razão de ser. Assim como no futebol, existem profissionais que transformam e revolucionam. Alguns merecem até mesmo o crédito por terem “inventando” ou “reinventado” uma banda ou artista. Um produtor jamais será mais importante que a música em si e quem a executa/compõe. Mas é cada vez mais comum ver a sua importância cada vez maior na realização/confecção de músicas e álbuns neste século XXI.

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