A melancolia e a poesia de Jeff Buckley e Nick Drake

Estadão

05 de março de 2011 | 23h29

Antonio Gonçalves Filho

As vozes outonais, as canções melancólicas e as densas letras de suas músicas são reveladoras do desamparo de ambos, o inglês Nick Drake (1948-1974), nascido na Birmânia, e o norte-americano Jeff Buckley (1966- 1997). O primeiro gravou três discos nos anos 1970, nenhum reconhecido na época. O segundo lançou apenas um disco oficial com resultados mais favoráveis.

Cultuados após a morte, Nick Drake e Jeff Buckley foram regravados por grandes músicos pop e do jazz e revivem agora em documentários e filmes de ficção sobre suas carreiras, alcançando surpreendentemente uma geração de ouvintes na faixa dos 20 anos, o que motivou as gravadoras estrangeiras a manter em catálogo os discos oficiais de estúdio e as gravações ao vivo dos dois músicos, mortos de forma trágica e ainda muito jovens.

O depressivo Drake morreu de overdose de Amitriptilina, aos 26 anos. Buckley morreu afogado, aos 31 anos. Na tarde de 29 de maio de 1997, o cantor entrou de botas e vestido no rio Mississippi, cantando Whole Lotta Love, do Led Zeppelin. Seu corpo só foi resgatado cinco dias depois.

 A autópsia não revelou sinais de drogas ou álcool. Sua mãe, a pianista e violoncelista Mary Guibert, diz que não foi suicídio. Só aprovou o longa-metragem que será feito sobre o filho com a condição de que essa versão prevaleça. O filme terá James Franco ou Robert Pattinson no papel de Buckley. James Franco certamente tem mais chances pela semelhança física com o cantor.

O inglês Nick Drake

A família de Nick Drake descarta igualmente a hipótese de suicídio. O músico foi encontrado morto na manhã de 25 de novembro de 1974, em seu quarto, mas a superdosagem de Amitriptilina teria sido acidental. A única voz dissonante na família é a da irmã Gabrielle, curadora póstuma da obra do cantor.

Nick, segundo a irmã, teria preferido “acabar com tudo aquilo de uma vez”. E “tudo aquilo” era a falta de reconhecimento crítico, a impopularidade e a tristeza de saber que fazia um tipo de música para as gerações futuras, mais habilitadas a entender o drama de um ser deslocado na estratificada sociedade inglesa dos anos 1970.

Drake era de uma família rica. O pai, engenheiro, foi transferido para a Birmânia pela empresa em que trabalhava. Lá nasceu o cantor, que aprendeu a tocar piano com a mãe, Molly Drake. Ela canta e toca numa gravação caseira feita em 1967, em Aix-en-Provence, na França, mais precisamente na faixa Do You Ever Remember?, do disco Family Tree, que precede os três LPs do músico e traz ainda sua irmã Gabrielle (na faixa All My Trials).

Uma curiosidade: Drake toca com a família um trio de Mozart durante essa visita que pai e mãe fizeram aos dois (Nick e Gabrielle) quando estudavam na França.

Até nisso Jeff Buckley se parece com Drake. Filho de Tim Buckley (1947-1975), cantor folk que também morreu de forma trágica (overdose de heroína), aos 28 anos, Jeff foi educado pela mãe e o padrasto, que o apresentou à música de Led Zeppelin e Jimi Hendrix ainda criança.

O norte-americano Jeff Buckley

Embora só tenha visto o pai biológico uma única vez, aos 8 anos, preferiu manter o sobrenome Buckley em homenagem ao cantor. A exemplo de Drake, tinha uma família musical, sendo marcado pelo gosto erudito da mãe, a ponto de gravar em Grace (1994), seu único disco oficial, uma canção (A Boy Was Born) do compositor inglês Benjamin Britten (1913-1976), baseada numa peça musical do século 16. É uma interpretação marcante de um cantor preparado. A voz de Buckley era educadíssima.

Tanto Drake como Buckley tinham formação musical, o que fica evidente pela escolha do repertório e os arranjos dos discos de ambos. Drake estudou nos melhores colégios da Inglaterra. Tocava clarinete e saxofone, além de violão, que os pais detestavam por ser um instrumento “vulgar”, usado por “rebeldes”.

Apesar disso, aos 17 anos, ele comprou um, escondido da família, por 13 libras, um ano antes de entrar na Universidade de Cambridge. Buckley teve melhor sorte. Filho de um cantor folk, achou um violão guardado no armário da avó. Aos 13 já tocava guitarra e, aos 19, estudava no Musicians Institute de Hollywood, onde revelou particular atração pela música de Bartók.

O que diferencia Drake e Buckley de outros músicos pop dos anos 1970 e 1990 é justamente o gosto musical eclético e a ambição literária dos dois. Drake estudou Literatura. Há muito da poesia de Yeats em suas letras, que falam de paisagens desoladas, seres solitários e infelicidade amorosa.

A última gravação de Buckley foi uma leitura do poema Ulalume, de Edgar Allan Poe, sobre um homem devastado pela morte de sua amada, para o álbum Closed on Account of Rabies, seis minutos da voz de um articulado intelectual num CD duplo sobre a obra do poeta, produzido por Hal Winner no ano da morte do cantor (o disco traz, entre outros, Marianne Faithfull e Iggy Pop).

Como Buckley, Drake escolheu produzir pouco, mas com qualidade. Sempre recusou o pedido de seu produtor Joe Boyd para promover os próprios discos. As matrizes de Pink Moon, o último, foram entregues no balcão da Island Records para a recepcionista da gravadora.

É um disco sem concessões, 11 saturninas canções com menos de meia hora de gravação, mas definitivas, a ponto de a revista Melody Maker , em 1972, anunciar que Drake inaugurava uma nova era na história da música. De fato. O culto de Nick Drake não parou de crescer desde a sua morte, assim como o de Jeff Buckley.

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