A luta pelos direitos humanos, celebrada em interessante CD duplo ao vivo

Estadão

25 de julho de 2013 | 06h53

Marcelo Moreira

Um lançamento interessante de 2013 praticamente passou despercebido nas lojas brasileiras: um CD duplo, vendido com preço de simples, contendo uma coletânea de registros ao vivo de quatro shows beneficentes de rock promovidos pela Anistia Internacional entre 1986 e 1998.

“Get Up! Stand Up! – Highlights from the Huan Rights Concerts – 1986-1998” foi colocado no mercado sem alarde pela ST2, após acordo com a Eagle Records. Os shows da Anistia ficaram famosos nos anos 80, e houve duas edições em São Paulo, em 1987 e 1988, tendo como artistas principais Sting e Peter Gabriel.

E os dois aparecem com destaque no CD duplo, e são responsáveis por alguns dos bons momentos da coletânea. The Police, com Sting na linha de frente, realizava seus últimos concertos antes da separação definitiva. Tocaram de forma raivosa “Message in the a Bottle” e “Every Breathe You Take” sem esconder que aquele era mesmo o fim. Os dois registros são do “A Conspiration of Hope”, em New Jersey, nos Estados Unidos, em 1986.

Sting aparece também em uma versão acústica muito interessante de “Don’t Stand So Close to Me” no “Human Rigts Now”, em Buenos Aires, na Argentina, em 1988, na mesma turnê que passou por São Paulo naquele ano.

Também é deste show o registro visceral de Bruce Springsteen e sua E Street Band para “Born in the USA”, apesar dos narizes torcidos por conta da canção “patriota demais” para ouvidos sul-americanos. Ele se redime em seguida com a boa canção “I’m on Fire”.

As versões de Peter Gabriel para “Sledgehammer” e ” Shock the Monkey” merecem destaque também, já que o cantor inglês foi um dos mais engajados nos concertos beneficentes. A segunda música, registrada em New Jersey, soa mais crua e mais pesada ao vivo, com Gabriel cantando com vontade.

Os pontos altos ficam por conta do U2 em New Jersey, em 1986, com dois de seus maiores hinos engajados, “Pride (n the Name of Love)” e Sunday Bloody Sunday”, e também com a dupla Jimmy Page e Robert Plant com “Rock’n’Roll”, clássico do Led Zeppelin, registrada no show “The Struggle Continues”, em Paris, em 1998.

O U2 vivia o final da fase de engajamento político, terminando a divulgação do álbum “The Unforgettable Fire” e às vésperas de entrar em estúdio para mergulhar na cultura norte-americana de “The Joshua Tree”, que seria lançado no ano seguinte. Apesar do cansaço evidente na voz de Bono, o quarteto mandou versões fortes e ligeiramente mais aceleradas

Page e Plant estavam na fase final da parceria iniciada em 1994. Aceitaram participar do show francserem ês em meio à divulgação do álbum “Walk Into Clarksdale”, mas privilegiaram o repertório antigo do Led na curta apresentação parisiense. A voz combalida de Plant demonstrava que ele deveria trilhar outros caminhos – o que realmente ocorreu nos anos 2000. Entretanto, a cortante guitarra de Page conferiu dignidade e peso a um dos clássicos do rock.

Por outro lado, muita gente esteve abaixo da média, em versões medíocres de seus próprios sucessos ou simplesmente em circunstâncias impossíveis de serem ultrapassadas por conta da chatice inerente a alguns personagens. É o caso de Tracy Chapman, a bem intencionada cantora folk norte-americana, mas que soou ainda mais insossa com suas versões ao vivo de “Fast Car” e ” Talkin’ ‘bout a Revolution”.

A chatice também dominou a performance de Joan Armatrading com seu folk arrastado e sonolento em “Love and Affection”. Às raias do insuportável, Alanis Morissette cometeu a fraquinha “Hand in My Pocket”, em um show completamente dispensável. Rubén Blades, acompanhado por Carlos Santana, não empolgou com ” Muevete”, assim como o herói Bob Geldof em uma versão embriagada e cansativa do hino “Redemption Song”, de Bob Marley.

Lou Reed, em New Jersey-1986, soou burocrático em “Walk on the Wild Side”, seu maior hit, mas não comprometeu. O mesmo se pode dizer de Miles Davis em “Speak-That’s What Happened”, no mesmo show, em performance correta, mas visivelmente deslocada em um evento predominantemente pop. Bryan Adams fez mais do mesmo em “Run to You” e “Summer of ’69”, mas não também não comprometeu.

Quem também pareceu meio deslocado na série de concerto que foi o Radiohead, que se apresentou em Paris-1998. “Karma Police” e “Bones” mostraram uma banda madura e já pronta para o sucesso mundial que conquistou pouco depois, mas ficou claro, nas duas faixas, que a banda podia ter feito mais naquele dia.

Get Up! Stand Up! Highlights From The Human Rights Concerts 1986-1998 - CD Duplo

Importância política e musical

Estimulado pelo Live Aid, ocorrido em 1985 em Londres e na Filadélfia (EUA), “The Human Rights Concerts” tornou-se o título genérico para a série de concertos promovidos entre 1986 e 1998 pela Amnesty International (Anistia Internacional), organização pró-direitos humanos, e consolidou a partir de então uma tradição de concertos beneficentes periódicos com grandes estrelas internacionais a partir de 1988.

As apresentações foram selecionadas dos seguintes concertos: • “A Conspiracy of Hope”, que excursionou apenas pelos EUA durante 1986 e tinha a intenção de comemorar os 25 anos da fundação da Amnesty Internacional. • “ Human Rights Now!”, a histórica série de 20 shows que percorreu 15 países, durante 1988, inclusive com uma apresentação no Brasil. • “ An Embrace of Hope”, um concerto realizado apenas no Chile, em 1990. • “ The Struggle Continues”, um único espetáculo realizado em Paris em 1998.

O principal fator que uniu tantos artistas foi o fato dos envolvidos nessa ação, acreditarem nos princípios que regem a Anistia Internacional. Os artistas doaram seu tempo e talento para iluminar o trabalho da Amnesty e sua campanha crucial para proteger pessoas cujos direitos humanos estão sendo violados em qualquer parte do planeta.

Criado após o sucesso dos lendários shows beneficentes “Secret Policeman’s Ball”, os “Concertos pelos Direitos Humanos” trouxeram a importância dessa causa à consciência de um público cada vez maior. Esses lançamentos visam angariar fundos para dar continuidade ao trabalho fundamental da Anistia Internacional.

O encarte do CD duplo faz um agradecimento especial a Pete Townshend, guitarrista do The Who, que foi um dos inspiradores do formato semi-acústico introduzido nos dois primeiros concertos.

No primeiro “Secret Policeman’s Ball”, em 1979, em Londres, Townshend não estava escalado, mas estava no local dos shows para ver os amigos tocarem. Entretanto, estimulado pelo caráter beneficente do evento e pelo clima de amizade, subiu ao palco com um violão em dois dos intervalos entre as apresentações, sendo imensamente ovacionado pelo público. Tal desprendimento norteou a relação dos músicos com os organizadores dos shows pelos direitos humanos da década de 80.

Lista de músicas:

Disc One
A  CONSPIRACY  OF  HOPE
NEW JERSEY, USA – 1986

01. Bob Geldof & Steven Van Zandt Redemption Song
02. Third World Now That We’ve Found Love
03. Joan Armatrading Love And Affection
04. Ruben Blades (with Carlos Santana & Fela Kuti) Muevete
05. Miles Davis Speak / That’s What Happened
06. Lou Reed Walk On The Wild Side
07. Peter Gabriel Shock The Monkey
08. Bryan Adams Run To You
09. Bryan Adams Summer Of ’69
10. U2 MLK / Pride (In The Name Of Love)
11. U2 Sunday Bloody Sunday
12. The Police Message In A Bottle
13. The Police Every Breath You Take

HUMAN RIGHTS NOW!
BUENOS AIRES, ARGENTINA – 1988

14. Tracy Chapman Talkin’ ’bout A Revolution
15. Peter Gabriel Sledgehammer

Disc Two

HUMAN RIGHTS NOW!
BUENOS AIRES, ARGENTINA – 1988

01. Sting Don’t Stand So Close To Me
02. Bruce Springsteen & The E Street Band Born In The USA
03. Bruce Springsteen & The E Street Band I’m On Fire

AN EMBRACE OF HOPE
SANTIAGO, CHILE – 1990

04. Inti-Illimani Bailando, Bailando
05. Wynton Marsalis Jungle Blues
06. Jackson Browne Lives In The Balance
07. Sinead O’Connor Nothing Compares 2 U

THE STRUGGLE CONTINUES
PARIS, FRANCE – 1998

08. Bruce Springsteen No Surrender
09. Tracy Chapman Fast Car
10. Alanis Morissette Hand In My Pocket
11. Peter Gabriel & Youssou N’Dour Shaking The Tree
12. Jimmy Page & Robert Plant Rock And Roll
13. Radiohead Karma Police
14. Radiohead Bones
15. Bruce Springsteen, Peter Gabriel, Tracy Chapman & Youssou N’Dour Get Up, Stand Up

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