A liberdade de expressão vai esmagar o politicamente correto

Estadão

27 de janeiro de 2012 | 06h21

Marcelo Moreira

O maior risco à liberdade de expressão em tempos de internet não são as ameaças do FBI de fechar sites de compartilhamento ou de incursões de governos de esquerda com projetos de lei para “controlar socialmente a mídia”. O maior risco é a praga do politicamente correto.

Vivemos em um tempo onde a esterilidade de ideias e de opiniões tomou conta da sociedade. É um tempo onde crítica virou sinônimo de preconceito e falta de respeito. É proibido falar mal de qualquer coisa, exige-se que toda e qualquer contestação seja feita de forma “eufemística”, onde mentira vira inverdade, coisa ruim vira “não tão boa assim” e outras coisas parecidas.

Fóruns de sites e blogs com permissão para comentários sobre futebol, por exemplo, viram praças de guerra tão violentas quanto as brigas de torcidas organizadas.

O mesmo comentarista é “acusado” de ser corintiano, palmeirense, flamenguista, anticruzeirense, antibaiano, barcelonista e argentino. O mesmo profissional é massacrado por elogiar ou criticar certo técnico ou atacante. A razão vai embora e sobram ofensas e xingamentos.
Na área cultural essa praga do politicamente correto empesteia o ambiente desde os anos 90. Houve um caso emblemático de um músico de bandas iniciante de heavy metal que não aceitou a crítica negativa de seu CD publicado em uma importante revista de rock e xingou muito o autor da resenha e os responsáveis pela publicação.

Um profissional da mesma revista sofreu ameaças de agressão em outra ocasião, ainda nos anos 90, justamente por uma resenha desfavorável ao trabalho de um músico.

Neste século XXI a situação se agrava. Respeito à opinião de jornalistas e críticos de qualquer coisa é artigo raro, ainda que os descontentes tenham condição de contestar diretamente, como no caso da internet. Crítica e opinião se tornaram ofensas e dignas de serem banidas da sociedade.

A desqualificação do texto e autor – geralmente sem nenhum argumento decente ou contraposição minimamente inteligente – se tornaram regra, em um vale-tudo virtual fora de qualquer propósito, sem o mínimo de bom senso ou educação.

O Combate rock tem sido vítima desse quadro há algum tempo. Foi assim quando eu critiquei o grunge, e disse que Nirvana é uma banda muito ruim; foi assim que no caso do texto a respeito dos Mutantes, que considero a banda mais superestimadas da história; e também em um texto a respeito de Raul Seixas, a respeito da chatice de parte expressiva de seus fãs e de seu talento musical questionável.

Nos casos citados, uma avalanche de fãs furiosos protestaram contra a crítica e a opinião, considerando um “insulto” que seus artistas preferidos fossem alvo de qualquer restrição, contestação ou questionamento. Poucos foram os que entenderam os textos e os contestaram-destruíram com sobriedade, inteligência e argumentos.

é o mesmo caso agora, no caso de uma constatação que fiz em texto do ano passado, quando afirmei que, na minha opinião, música eletrônica é barulho e DJ não é músico. É uma opinião, escrita em um blog de minha responsabilidade e autoria, hospedado no Jornal da Tarde e no Grupo Estado.

É foi assustadora a incapacidade que a maioria dos leitores contrários ao texto demonstrou de ao menos respeitar o meu direito de escrever e de externar minhas opiniões – liberdade de expressão. E tudo isso misturado com a total falta de informação sobre o que é democracia, liberdade de opinião e outras coisas. Até ameaças de agressão ocorreram. E tudo apenas e tão somente porque eu deu uma opinião.

Certamente são tempos desagradáveis. Não se pode falar mal de ninguém. Um CD ou livro não pode mais ser chamado de ruim ou péssimo. Só pode ser qualificado de “não tão bom assim”. Dizer que DJ não é músico é proibido, é um “insulto”, um “atentado”, que o texto “ofende e é ofensivo”, que “falta com respeito a uma série de profissionais” e por aí vai.

Dizer que música eletrônica é barulho, que é ruim, virou um “ataque a toda a uma classe profissional e a seus fãs”… Equivale dizer que a afirmação de que um time de futebol é muito ruim porque tem um jogadores péssimo é uma “afronta à honra de um clube de seus milhões de torcedores…”

Seria engraçado e patético se esse tipo pensamento distorcido e equivocado não tivesse se disseminado na sociedade moderna, não só no Brasil, mas também na Inglaterra, nos Estados Unidos e na mesmo nas civilizadas Alemanha e Suécia.

Se o politicamente correto fosse predominante nos anos 70 e 80 nos Estados Unidos, seria impossível existirem programas como “Howard Stern” e “Saturday Night Live”. E no Brasil o CQC não duraria uma semana.

E o mais grave é o completo desconhecimento de parte dos leitores a respeito do papel de um jornalista e da imprensa na sociedade. As aberrações são muitas nos comentários: “jornalista mão pode opinar, no máximo relatar e só” (como assim????). “Jornalista não pode criticar, tem de ser imparcial “(??????), “jornalista tem de pesquisar e não pode falar o que quer sobre qualquer assunto” (???????).

Ou seja, no período mais livre da história da humanidade e com meio de comunicação mais democrático e libertário que já surgiu, onde todos podem falar o que quiser e sobre o que quiser em blogs – instrumento essencialmente crítico e opinativo – surgem “forças” contrárias apoiadas no “politicamente correto” para tentar uniformizar as opiniões.

O politicamente correto é abominável e será espancado no Combate Rock. Aqui tem opinião e crítica, e é um site democrático por aceitar críticas, pancadas, ofensas e xingamentos – é só dar uma rápida lida nos comentários a respeito da música eletrônica ser considerada um barulho por mim.

Que digam que os textos são ruins, rasos, ridículos, tendenciosos, parciais, até mesmo desrespeitosos (o que nunca foram no Combate rock). Que o jornalista é ruim, que é fraco, que é desqualificado e desinformado, mas jamais aceitaremos que nos chamem de mal intencionados e vendidos, ou qualquer idiotice do gênero. O Combate Rock honra o Grupo Estado. E vai continuar opinando e criticando.

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