A história do peso em Santa Catarina

Estadão

12 de outubro de 2013 | 16h14

Alessandro Bonassoli  – Especial para o Notícias do Dia

A história do heavy metal em Santa Catarina é praticamente a mesma que o estilo vive no Brasil. Iniciou nas garagens de jovens que não tinham nada em comum com MPB, samba e música regionalista, ganhou espaço em festivais de colégios, consolidou alguns nomes, viu a modernidade chegar mas, até hoje, luta diariamente pela sobrevivência.

Com quase nenhum apoio do poder público ou de casas de shows, encarando um pré-conceito eterno, a música pesada catarinense deu os primeiros passos em 1978, quando o mitológico Burn iniciou, na Grande Florianópolis, uma carreira em um estado onde simplesmente não existia rock and roll. O power trio que fabricava seus próprios instrumentos abriu portas para jovens das décadas seguintes.

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Consequência direta da passagem do Kiss no país, em 1983, e do primeiro Rock In Rio (1985), bandas como Almas de Ferro, Lasher, Angelus Pace, Embryonic Death e Vastness, empolgaram na região da capital um público que começava a se multiplicar silenciosamente, distante da mídia local. Poucos anos depois, em Lages, surgiria a Orquídea Negra, que chegaria a gravar um registro em vinil, o clássico “Who´s Dead?”.

A cena cresceu na década seguinte, já com uma presença maior no interior. É desta fase a extinta Syndrome, de Balneário Camboriú, que investiu forte no intercâmbio com bandas sul-americanas ao produzir o saudoso festival Mercorock. No mesmo período surgiriam os primeiros registros catarinenses em CD, como Tempestas, em Florianópolis, e Steel Warrior, em Itajaí, cujos trabalhos foram lançados nacionalmente por gravadoras especializadas. O Steel Warrior, por sinal, teve seu álbum de estréia, “Visions From The Mistland”, pirateado na Europa, por onde excursionaria em seguida, levando pela primeira vez a bandeira do metal catarinense ao Velho Mundo.

No século XXI consolidou-se a tendência de profissionalização. Afinal, toda e qualquer banda nacional do estilo sonha com os mercados europeu e norte-americano. Stormental e Khrophus (que também fizeram turnês europeias), além de Blakk Market, Rhestus, Symmetria, Symbolica e Sized, são alguns dos nomes que gravam CDs e se aventuram pelas estradas Brasil afora, investem em websites e mídias sociais para serem ouvidos no primeiro mundo. Um avanço e tanto se comparado com a correspondência por cartas e fanzines fotocopiados que os pioneiros utilizaram nos anos 80.

E o próximo capítulo dessa história de dedicação abnegada ao metal? A única certeza para todas essas bandas, veteranas ou não, é que o futuro começa hoje. O Notícias do Dia localizou 49 grupos em atividade em todas as regiões do Estado. Certamente, há muitas outras. Talvez o próximo passo seja o intercâmbio entre elas para assegurar um circuito de shows em Santa Catarina, de onde todas têm potencial para alçar voos maiores.

Conquistando territórios

Faltava dinheiro e local para tocar. Mas havia vontade e público. Receita básica para iniciativas isoladas em vários pontos de Santa Catarina. No litoral ou no interior, algumas bandas decidiram desbravar e conquistar território, trazendo grupos de outras regiões, para shows ou criando festivais.

Em 1992, bandas famosas no undeground nacional começaram a tocar na região da Capital graças ao trabalho de Robson Pigg, o Binho. No melhor estilo do it yourself, ele trouxe a lendária Dorsal Atlântica, influência direta para o surgimento do Sepultura, o maior nome do metal brasileiro até hoje, Genocídio e Krisiun, entre muitos outros.

Ainda em Florianópolis, anos depois, Adriano Ribeiro, guitarrista do Khrophus, aproveitou a existência do Heaven Rock Bar, no Estreito, um dos raros locais que abriu espaço para a turma das camisetas pretas. Promoveu shows de grupos do Estado, de outras regiões e até do exterior. Já são mais de 300, assegurando contatos que firmaram o grupo no Brasil e rendeu condições para a terceira tour na Europa.

“Trazer músicos de outros centros é, além de uma oportunidade para nós catarinenses tocarmos para o nosso público, a chance de mostrar nosso som fora do Estado”, conta Thiago Rocha, guitarrista do Blakk Market. No caso deles, graças à parceria com Ribeiro, puderam tocar com o sueco Marduk. Em um show promovido por Alexei Leão, do Stormental, abriram para o Imago Mortis (RJ). “Isso ajudou a divulgar a banda no Brasil e no exterior”, comemora Rocha.

Ideias semelhantes colocaram Santa Catarina no mapa nacional de eventos especializados em rock pesado. Em Indaial, o River Rock acontece há 13 anos. A banda Orquídea Negra, em Lages, decidiu montar um festival anual, o Orquídea Rock Fest, que chegou à 9ª edição em 2013. Em Rio Negrinho, o Zoombie Ritual Festival terá, de 13 a 15 de dezembro deste ano, 29 bandas do Brasil, Colômbia, Equador, Paraguai, Inglaterra e Alemanha, incluindo Kreator, D.R.I. Benediction e Ripper Owens, nomes do alto escalão no metal mundial. Em todos, a marca da organização impecável, sem histórico de violência e intercâmbio com muita música.

 

Arte/ND

Mapa do heavy metal catarinense

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