A História da KFK Webradio – A Rádio Que Tocou Idéias… – parte 4 (final)

Estadão

18 de novembro de 2012 | 16h07

Luiz Carlos Barata Cichetto – poeta e escritor

Baseado no anti-conceito:”interrogações, mutações, metamorfoses e um pouco de música sem rótulos”, criei e produzi programas nas vertentes mais diversas da musica de qualidade, sem buscando na pluralidade as bases que fizeram da KFK um projeto amplo dentro dos preceitos do rádio.

Um dos destaques foi a exibição na integra e direta, num único dia, de “O Anel do Nibelungo” de Richard Wagner, com a duração de mais de 10 horas, algo que acredito inédito ou ao menos muito pouco feito em qualquer rádio no mundo.

Outra criação que acredito histórica, ao menos dentro das webradios, foi a criação do programa “Deidades – Deus e o Diabo na Terra dos Bytes – ou Vai Dormir, Porra!”, onde eu, juntamente com o musico carioca Agostinho Carvalho, “vestíamos” os personagens de Deus e o Diabo e realizamos um “talkshow” anárquico e criativo, mesclando criticas musicais e sociais com um humor nonsense. O programa durou 25 edições semanais e foi efetivamente algo que marcou.

As entrevistas com músicos e artistas e geral, foi também um marco importante, sempre tratado com muita atenção. Programas como o Radio Barata e Heróis do Brasil apresentaram dezenas de entrevistas, ou melhor conversas, com artistas que tinham total liberdade de expor idéias e mostrar seus trabalhos.

Baseado no anti-conceito:”interrogações, mutações, metamorfoses e um pouco de música sem rótulos”, criei e produzi programas nas vertentes mais diversas da musica de qualidade, sem buscando na pluralidade as bases que fizeram da KFK um projeto amplo dentro dos preceitos do rádio. Um dos destaques foi a exibição na integra e direta, num único dia, de “O Anel do Nibelungo” de Richard Wagner, com a duração de mais de 10 horas, algo

Muitos músicos de bandas pouco conhecidas do publico como Slippery, Psychotic Eyes, Paradise Inc, Imagery e Banda do Sol entre outros, passando pelas já bem conhecidas, como de bandas como Tomada, Cracker Blues, Uganga e Carro Bomba.

Dentre esses conhecidos, aquela que mais foi reapresentada e comentada, foi um especial com Rolando Castello Junior, lendário baterista da banda Patrulha do Espaço, com quatro horas de duração. As conversas era gravadas via Skype e editadas apenas para a inserção das musicas dos artistas, sem nenhum corte.

Sempre levei a sério a missão que estabelecera para a KFK: “A Rádio Que Toca Idéias”, colocando a musica não como fator dominante da programação, mas como uma deflagradora de idéias, instigadora e contestadora e assim criando programas como o “Katarze” e o “Rádio Cortição”, cujos objetivos eram o de mesclar opiniões, sentimentos e principalmente idéias, num único espaço realmente coletivo.

Aliás, a chamada “participação coletiva” era o centro da criação da rádio e foi esse a razão do seu “fracasso”. Desde o principio, cooptei pessoas que acreditei ter a mesma linha de pensamento acreditando que pudessem de uma forma efetiva e prática participar dos destinos do projeto.

A princípio a maioria entendeu, mas em pouco tempo, um a um foram desistindo. A gota d’agua fatal foi efetivamente a participação financeira que muitos se propuseram e pouco a pouco foram desistindo, dando desculpas ou simplesmente desaparecendo.

Financeiramente era impossível bancar sozinho aquele projeto e a desistência mês a mês de mais e mais pessoas, abriu um rombo enorme, a ponto de gerar uma divida imensa com a empresa que fornecia o “streaming”.

Tentei ainda de todas as formas manter o projeto vivo, criando e oferecendo camisetas, abrindo possibilidade de participações de simpatizantes e até mesmo a possibilidade de colocar pequenos anúncios, sem qualquer resultado positivo.

Num determinado momento, um professor universitário, de nome Ayrton Pinto Silva se sensibilizou com o projeto e se dispôs a colaborar financeiramente, mas, poucos meses depois, alegando problemas financeiros, também pulou fora.

E no fim, é claro, não tinha como esse processo não causar rupturas até mesmo com amizades antigas e isso acabou acontecendo. Os antigos companheiros foram simplesmente silenciando, desaparecendo e eu fui ficando sozinho. Apenas escutando as antigas vozes solitárias dentro da minha cabeça.

Finalmente, em setembro de 2012, um ano e meio depois, com a KFK Webradio arrastando-se, sem nenhum interesse em manter um zumbi devorando o que restava da minha “Vontade Indômita”, decidi encerrar definitivamente suas atividades. Não fazia sentido manter a KFK Webradio no ar tendo como audiência apenas pouquíssimos interessados. Não fazia sentido criar e manter a programação de forma solitária.

E assim, sem aviso, sem postagens em redes sociais, sem reclamações, nem lamentos, como bem gostam aqueles… A KFK Webradio deixou de existir, sem ao menos uma voz saudosa reclamasse ou lamentasse. Assim deixou de ser outra voz. A minha voz estava calada e as vozes dentro de mim também silenciaram. Não havia mais interrogações, mutações, metamorfoses e (nem) um pouco de musica sem rótulos. Não havia mais idéias a serem tocadas.

E por fim existe uma analise a respeito que é a seguinte: da mesma forma que as facilidades oferecidas pela tecnologia atual propiciaram o surgimento de um numero insuportavelmente alto de escritores e poetas, existindo quase em numero idêntico ao de leitores, o mesmo ocorre com as rádios em internet.

É muito fácil e muito barato ser ter hoje uma rádio dessa forma, o que faz com que as pessoas as criem apenas para satisfazer seus egos. E acabam criando rádios que são escutados apenas por eles próprios.

Com a popularização de sites como o Youtube e outros e a facilidade como se baixa musicas para os computadores, a “necessidade” de uma rádio, seja pelo conceito tradicional ou moderno simplesmente se esvaiu. No fim, da mesma forma que qualquer e todos se considera tanto escritor quanto jornalista, quanto produtor e “dono” de rádio.

Todos os sistemas e práticas de produção artísticas foram banalizadas, se tornaram inócuas e inúteis. E uma coisa inócua e inútil é simplesmente desnecessária e inútil. Não percamos, pois mais tempo e dinheiro com tais desnecessidades e inutilidades.

Mas, agora, que eu continuo ouvindo vozes, isso continuo mesmo! Quem viver… Ouvirá!

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