A História da KFK Webradio – A Rádio Que Tocou Idéias… – parte 2

Estadão

17 de novembro de 2012 | 16h06

Luiz Carlos Barata Cichetto – poeta e escritor

 

Ainda nos anos 1970, antes das vozes do Kaleidoscópio, de posse de um gravador mono cheguei a montar fitas com programas de rádio. Era comum entre os amigos a troca de fitas cassete gravadas com musicas. Eram simplesmente musicas copiadas de discos de vinil ou até mesmo, para quem tinha a sofisticação de dois gravadores, outras fitas cassetes.

 
Eram fitas de 60 ou 90 minutos que tinham no rotulo escrito os nomes à mão ou, mais sofisticadamente em máquinas de escrever. Mas as minhas tinham um toque diferente, pois eu gravava minha voz apresentando e até falando algo sobre a musica ou artista.
 
No inicio os amigos riram e achavam esquisito aquilo, mas depois começaram a gostar da idéia e me pediam. Com o tempo, comprei um aparelho três-em-um que facilitava o trabalho e tinha entrada para dois microfones, o que dava um ar de sofisticação incrível ao meu projeto. Cheguei até a criar um nome, “Rádio K7”, inspirado nos prefixos das rádios comerciais e um logotipo tosco que era desenhado diretamente na caixinha da fita.
 

Mas, se até o inicio terceiro milênio ter um programa de rádio era uma coisa quase impossível, longe do alcance da maioria dos sonhadores, ter uma rádio então, era coisa de abastados grupos de comunicação que detinham o poder de vida e de morte sobre esses sonhos.

Mas com o advento da Internet de banda larga e os consequentes menores custos de transmissão, aliado a programas muito mais simples de edição de áudio, começaram a surgir as primeiras estações de webradio. No Brasil, a primeira que tive contato foi com a “Rock Geral”, de Paulo Rogério, um microempresário que tinha uma enorme discoteca de Rock e uma paixão pela também incomensurável pela musica e que montara um servidor próprio dentro de seu escritório.

E no fim do expediente, Paulo se punha a converter musicas, gravar locuções e vinhetas, num trabalho que exigia muito tempo de montagem e edição. Em 2001 conheci pessoalmente o Paulo o que propiciou que eu aprendesse um pouco sobre rádios em Internet. Criei o site da “Rock Geral” e ficamos amigos, até que ele desapareceu completamente, levando com ele seu sonho. E o meu.

 

Menos de um mês depois fui convidado por uma figura misteriosa, que não divulga seu nome verdadeiro, origem nem nada, a apresentar um programa na sua recém criada rádio web. Ele tinha um blog de muito sucesso, desses de “download” de musicas. Relutei por medo de que pudesse acontecer o mesmo que na frustrante tentativa anterior, mas a figura me garantiu que eu teria liberdade total.

Isto posto, passei timidamente a montar meus programas semanais, de duas horas de duração, que alcançavam, dentro do universo das rádios internet, uma audiência significativa alavancada pelo meu histórico dentro de um dos sites de Cultura Rock mais emblemático, e que, juntamente com o Whiplash, tinha se tornado uma referência na Internet, gerando inúmeros filhotes.

Renascia então o “Rádio Barata”, programa semanal onde eu incluía poesia, entrevistas. E como sempre gostei de não ser apenas um coadjuvante, mas sempre participar ativamente de tudo, passei a colaborar com temas, idéias, criação de outros programas, músicas e até mesmo na construção do website da rádio, que até então se mantinha apenas com blog.

Mas um ano e meio, 69 programas, depois, a fogueira de vaidades novamente foi acesa e depois da gravação de um programa em que nós dois participávamos com a “mediação” de outro colega, descontente porque sua voz não estava mais alta que a minha na gravação final, a misteriosa figura simplesmente deflagrou uma campanha difamatória contra mim entre os outros participantes da rádio, me deixando isolado.

Como o poder gera amigos e quem está do outro lado é sempre inimigo, sentindo-me ostracizado, simplesmente me demiti no ar. E naquele momento estava decretado o fim do meu sonho de deixar de apenas ouvir vozes, de ser uma delas.

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