A História da KFK Webradio – A Rádio Que Tocou Idéias – parte 1

Estadão

17 de novembro de 2012 | 07h06

Luiz Carlos Barata Cichetto – poeta e escritor

 

Eu diria que a primeira coisa que lembro de ter escutado na minha vida foi o som do rádio. Não recordo de, antes das vozes emocionadas das rádio-novelas ter escutado outra coisa. Mesmo a também emocionada voz da minha mãe é uma lembrança posterior.
 
E foram tantas essas vozes que hoje se misturam num burburinho esquizofrênico dentro da minha cabeça. De fato eu ouço vozes, nem sempre de pessoas mortas, mas algumas ainda vivas. Um burburinho que mistura as vozes de Silvio Santos e sua partner Maria Helena na Rádio Nacional de São Paulo com a de Zé Béttio e sua pantomima que misturava sons de burros, latas batendo e muita musica brega, “Joga água nele!”.
 
Ouço vozes como a de Vicente Leporace que com seu “Trabuco vai dar um tiro nas noticias dos jornais”, como a de Gil Gomes que “ao final de mais um Dramas da Cidade, lhes diz… Bom dia!”, no melhor uso de reticências que alguém já fez na história das comunicações.
 
E ouço ainda outras vozes, como a de Antonio Celso dando a noticia do assassinato de John Lennon na Bandeirantes FM, como a de Darcio Arruda na Difusora AM e como a de José Paulo de Andrade na Bandeirantes AM, que me acordava com o miado do gato e seu pulo, todos os dias para ir ao trabalho durante décadas.
 
 E ainda ouço a maravilhosa e impostada voz de Hélio Ribeiro, com sua filosofia de botequim com ares de Nietzsche, embalada por traduções simultâneas de musicas populares. E eu ouço vozes, muitas outras vozes, como a de Barros de Alencar e seu inglês com sotaque puramente nordestino, Ramos Calhelha, Ferreira Martins e até mesmo as vozes de locução esportiva de Fiori Giglotti e José Silvério. Vozes de cantores mortos, de locutores bêbados, de jornalistas comunistas e humoristas que perderam a graça. Ouço vozes, muitas vozes!
 
E mesmo longe do rádio, continuava escutando essas vozes. E as ouvia até mesmo dentro do escuro do cinema. E em filmes sempre me identificava com personagens ligados de alguma forma a elas. “Supersoul”, o personagem de Clevon Little em “Vanishing Point”, um radialista cego e negro, que era a “Voz da Liberdade” e de certa forma da consciência, de Kowalski, que fugia de algo pelas estradas americanas cheias de hippies motoqueiras nuas e fanáticos religiosos.
 
E até mesmo em filmes até meio idiotas, como “Tchau Amor” estrelado por Antonio Fagundes em que o personagem é um radialista de sucesso que traça a gostosa filha do dono da rádio e cai em desgraça terminando por suicidar depois de transmitir da unidade móvel por toda cidade, uma declaração de amor a ela. O rádio e suas vozes misteriosas e tão reais quanto a minha…
 
Arte: José Nogueira para www.abarata.com.br
E dentre as vozes que ainda ouço, das vozes que nunca calam dentro da minha cabeça, uma das mais importantes e emblemáticas foi a de Jaques, que nas madrugadas de uma rádio pertencente a igreja católica nos levava numa viagem do mundo do Rock Americano e Europeu ao mais baixo underground da cena paulistana da segunda metade dos anos 1970.
 
“Kaleidoscópio” era escutado num rádio de pilhas, hora estrategicamente colocado na calçada, hora sob o travesseiro. E da meia noite as duas da manhã, todos os dias, Rock’n’Roll, poesia e outras formas de expressão, eram a únicas vozes existentes num mundo que já deixava de pertencer aos “jovens”.
 
E ali ouvi também outras vozes, além de vocalistas de Rock, como David Byron e Ouzzy Osbourne, eu ouvia as vozes de Valdir Zwestch que na época fabricava sonhos, Maytrea e Silvelena, Nano & Ge que fabricavam poesia, além de muitos outras E aquela voz macia, mas firme de Jaques Sobretudo Gersgorin ou apenas “Jaques Kaleidoscópio” ficou feito um fantasma esquizofrênico dentro da minha cabeça durante décadas, me soprando no ouvido o que eu tinha que fazer. Até que um dia resolvi escutar essa voz. E fiz.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.