A grande obra do Pink Floyd faz 40 anos – parte 4

Estadão

29 de março de 2013 | 22h00

Irapuan Peixoto – site HQRock

Fale Comigo… Terminando o disco

Wright e Gilmour brincam com sintetizadores.

Wright e Gilmour brincam com sintetizadores.

Neste ponto, as gravações, que começaram amistosas e cheias de trocas entre os músicos, já estavam fervilhando de tensão entre as duas principais mentes criativas da banda: Roger Waters e David Gilmour. Por um lado, Water era o mentor do projeto, autor de grande parte das canções (Time, Money, Brain demage e Eclipse) e tinha feito letras para todas as canções (que incluem ainda Breathe e Us and them). Por outro lado, embora Gilmour tenha composto apenas uma canção (Breathe, que é repetida dentro de Time, então, também lhe dá crédito) e contribuído para a instrumental Any color you like, ele era a alma musical da banda. Sua guitarra é a marca fundamental do grupo. Suas ideias de arranjo também eram mais concisas. E, por último, mas não menos importante, Gilmour era o principal vocalista do grupo, cantando na maioria das faixas, inclusive, em Us and them, que poderia ter sido cantada por Wright, que era o autor.

Gilmour era a voz da banda e o músico mais completo.

Gilmour era a voz da banda e o músico mais completo.

Falando em Wright, apesar de ter composto Us and them e The great gig in the sky e ter contribuído para a instrumental Any color you like, o tecladista não era uma voz ativa dentro do grupo. Sua personalidade calada e quieta lhe deixava à margem das grandes discussões. Ainda assim, Wright canta nas interseções de Time e faz backing vocals em várias das outras.

Roger Waters foi o grande mentor do disco, criando a maioria das canções e todas as letras.

Roger Waters foi o grande mentor do disco, criando a maioria das canções e todas as letras.

Contudo, Waters e Gilmour discordavam radicalmente como aquelas gravações deveriam soar no disco. Neste ponto, a maior parte do material já estava gravado, mas havia algumas sobreposições e, o mais importante, a mixagem, que iria definir “a cara” das faixas. E os dois não concordavam quanto a isso.

Por isso, uma saída diplomática foi contratar o produtor Chris Thomas para supervisionar a mixagem e, assim, atuar como mediador entre os dois egos inflamados. Thomas era um funcionário de carreira da EMI, tendo começado a carreira como engenheiro de som dos Beatles na gravação do mítico Álbum Branco, em 1968. No ano seguinte, Thomas assumiu efetivamente a função de produtor em várias das faixas de Abbey Road, o último álbum do quarteto de Liverpool. A partir dali, começou uma vitoriosa carreira de produtor, que lhe levaria a trabalhar com grandes nomes, desde Elton John à banda punk Sex Pistols.

Muitos creditam à Chris Thomas a polida de Darkside…, que apesar de todo o seu experimentalismo, ainda é uma obra bastante acessível ao grande público.

Clare Torry deixou sua marca em The great gig in the sky.

Clare Torry deixou sua marca em The great gig in the sky.

Outra contribuição de Thomas foi convidar a cantora Clare Torry para colocar vocais na instrumental The great gig in the sky, de Richard Wright. Não foi escrita uma letra para ela, então, Torry foi instruída pela banda a simplesmente produzir um canto sem palavras que acompanhasse o ritmo da canção, indo do frenesi à calma absoluta e vice-versa. A cantora gravou sua participação em três takes e foi embora, achando que não seria aproveitada para a versão final. Só ficou sabendo do resultado quando o disco foi lançado.

Décadas mais tarde, advogados instruíram Torry a reivindicar coautoria da canção, por ter proporcionado a melodia. Ela ganhou a causa em 2005 e, desde então, The great gig in the sky é creditada a Wright-Torry.

Disputas para encerrar o disco.

Wright, Gilmour, Mason e Waters: Disputas para encerrar o disco.

Também foi na etapa final das gravações com Chris Thomas que as falas foram incluídas no disco. Roger Waters teve a brilhante ideia de fazer entrevistas com pessoas próximas ao grupo ou funcionários dos estúdios Abbey Road com perguntas sobre o que pensavam sobre a loucura, a violência ou quando foram violentos pela última vez. As entrevistas foram gravadas e até o ex-beatle Paul McCartney foi entrevistado, já que estava gravando um disco no mesmo estúdio na mesma época. Contudo, as respostas evasivas do famoso compositor não foram utilizadas.

As interseções são incluídas geralmente no início ou no fim das canções, bem como no início de algumas sessões instrumentais e complementam de maneira incrível o conteúdo do disco. Há relatos sobre brigas e sobre quem tem razão; o assistente de palco da banda Chris Adamson dizendo que “eu estive louco por uma porrada de anos”; o outro assistente Pete Watts dizendo “eu sei que estive louco, eu sempre soube que estive louco”, bem como dá uma risada maluca ouvida no início do álbum; e por fim, o porteiro do estúdio, Jerry Driscoll, dizendo uma frase estupenda que é ouvida nos últimos segundos do disco: “não há um lado escuro da lua; na verdade, ela é toda escura“.

As últimas sessões do álbum, já em janeiro e fevereiro de 1973, foram dedicadas à criação da introdução instrumental Speak to me, que abre o disco e sintetiza vários elementos sonoros que serão ouvidos mais adiante; bem como a batida do coração que abre e encerra o álbum, gravada com a bateria de Nick Mason.

A capa do disco em vinil.

A capa do disco em vinil.

Por fim, não menos importante, na etapa final das gravações foi feito o design da capa do álbum, que se tornaria uma das mais icônicas imagens do rock em toda a sua história. O tecladista Richard Wright havia solicitado ao amigo Storm Thorgerson, dono da empresa Hipgnosis, que executasse uma capa simples e essencial. Thorgerson e a Hipgnosis já havia criado a maioria das capas do Pink Floyd a partir de seu segundo disco. Thorgerson também era de Cambridge e amigo de adolescência de Roger Waters, David Gilmour e Syd Barrett. Cabe a ele aquela aparência tão significativa da maioria das capas da banda, cheias de enigmas.

O prisma combina fotografia, desenho e pintura, porque o triângulo sugere algo elementar. Roger Waters teve a ideia da luz do prisma se transformar em batimentos cardíacos dentro da capa dupla do LP, para manter uma conexão direta com a música. E antecipando o alto investimento da EMI ao projeto, a Hipgnosis foi financiada para uma visita ao Egito para fotografar as pirâmides que aparecem no encarte.

A capa dupla do LP original permitia a criação de painéis muito bonitos nas vitrines das lojas, com a imagem se estendendo infinitamente pela combinação de várias unidades.

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