A formação de Bob Dylan, agora em CD

Estadão

13 de dezembro de 2010 | 16h00

Roberto Nascimento

O manto profético que encobriu Bob Dylan quando “Blowin’ in the Wind” virou trilha sonora dos protestos em prol dos direitos civis, nos Estados Unidos, em 1963, ajudou a ofuscar boa parte da evolução estilística pela qual o artista passou nos anos em que foi de lenda underground do folk a porta-voz de turbulências culturais.

A história conhecida é a do menino judeu dos rincões do Minnesota que se mudou para Nova York para visitar seu mentor, Woody Guthrie, no hospital. Passou a fazer música de protesto, foi coroado pelo mundo como o jovem messias do folk e, alguns álbuns depois, ao enveredar pelo rock ‘n’ roll, deu uma banana para os fãs e puristas que o consideravam a salvação da música popular.

Mas a história é mais complexa e seus detalhes são revelados em “Bootleg Series Vol. 9 The Witmark Demos: 1962-1964”, gravações-demo feitas para as editoras Leeds e Witmark, entre os anos de 1962 e 1964.

Além das contundentes releituras de canções populares que Dylan fez em seu primeiro disco, Bob Dylan, de 1962, poucos registros capturam tão bem o amplo leque de influências (do delta blues a Rimbaud) que se fundiu durante o processo de transformação que deu origem à voz esganiçada e à poesia de Dylan – esta, de forma brilhante, já incorporava sofisticação lírica a crônicas do cotidiano rural.

Uma das versões que contém as gravações de "Bootleg nº 9"

O disco, duplo, mostra um Dylan determinado a absorver a tradição musical americana. Sua intenção rebelde evoca Guthrie. Seus dedilhados reluzentes respiram a tradição do violão folk e transitam nas fronteiras entre o blues de raiz.

Ao longo das 47 canções, uma sensação de intimismo brota quando se ouve bater a porta do quarto de gravação ou quando Dylan interrompe por ter se esquecido da letra. Isso torna ainda mais arrebatador o efeito de algumas das pérolas.

“Tomorrow Is a Long Time”, uma de suas canções mais reinterpretadas – porém nunca gravada por Dylan em estúdio – é entoada com uma melodia exuberante, acompanhada de letra que reflete sobre o passar do tempo. É uma obra estarrecedora cuja profundidade e maturidade são espantosas para um músico que havia ainda de completar seus 24 anos.

“Masters of War”, uma das canções de protesto mais dilacerantes já escritas, assim como versões-rascunho de “Mr. Tambourine Man” e “Blowin’ in the Wind” dão o recado: Dylan está endiabrado e o ar do quartinho de gravação vibra com a efervescência de sua fase mais prolífica.

Capa de "Bootleg Series Vol. 9 The Witmark Demos: 1962-1964"

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