A festa dos documentários musicais na 4ª edição do In-Edit, em São Paulo

Estadão

21 de maio de 2012 | 06h27

Marcelo Moreira

Um evento fantástico que já está definitivamente no calendário cultural de São Paulo. O In-Edit – Festival Internacional de Documentários Musicais, criado em Barcelona no começo dos anos 2000, chega a sua quarta edição paulistana com o que de melhor se produziu no último ano sobre música na área de vídeo no mundo.

No ano passado os destaques foram a presença do mago norte-americano Albert Maysles, responsável pelo magistral filme sobre a primeira visita dos Beatles aos Estados Unidos, em 1964, e de Lemmy Kilminster, líder e baixista do Motorhead, que veio prestigiar uma fita sobre a sua vida.

O convidado especial da edição deste ano é o diretor e músico britânico Don Letts, nome importante da cena punk na Grã-Bretanha e responsável por documentários de destaque, como “Punk: Attitude”, “The Punk Rock Movie” e “Westay To The World”.

Na área do rock, que é o que nos interessa , a obra mais conhecida a ser exibida provavelmente é “Living the Material World”, do gênio Martin Scorsese, diretor de cinema premiadíssimo e diretor do ótimo “Shine a Light”, misto de documentário e show dos Rolling Stones lançado em 2008.

O filme mostra a vida do beatle George Harrison do ponto de vista do cotidiano. O músico, uma pessoa caseira e introspectiva, não fica esquecido, mas a ênfase é na vida diária que ele levava, com seu apreço pela privacidade, pela hobbies como jardinagem e automobilismo e seu interesse por cinema. Há depoimentos de gente como o produtor dos Beatles George Martin, Eric Clapton, Paul McCartney e de familiares.

Outra boa pedida são os dois volumes mostrando um pouco da carreira da ótima banda inglesa The Kinks, que rivalizou com Beatles, Who e Rolling Stones nos anos 60.

A curiosidade é que as duas figuras centrais da banda, os irmãos Ray e Dave Davies, ambos guitarristas, estão brigados há quase 20 anos e não se falam, o que obrigou o diretor Julien Temple a desmembrar o filme em dois – “Ray Davies – Imaginary Man” e “Kinkdom Come – Dave Davies”, cada um com o ponto de vista do músico retratado.

Formação dos Kinks em 1964; Ray Davies é o último à direita; Dave é o segundo da esq. para a dir.

 “God Bless Ozzy” é outro “blockbuster”, um filme que traça um panorama da carreira do cantor Ozzy Osbourne, a voz do Black Sabbath, com ênfase em seus problemas com drogas e álcool e a sua superação.

Vale também uma olhada no filme “Sacred Triangle – IggyPop, David Bowie and Lou Reed”, que retrata a relação entre os três músicos na composição e gravação de clássicos dos anos 70.

A figura central é o inglês Bowie, que apoiou diversas produções de Lou Reed após o final do Velvet Underground em 1972. Muito amigos, acabaram rompendo no final dos anos 70 para se reconciliarem 20 anos depois.

O inglês também é figura importantíssima na vida de Iggy Pop, desiludido com o segundo fim dos Stooges em meados dos anos 70. Completamente perdido, acabou conhecendo Bowie por volta de 1975 e se tornaram grandes amigos, com o inglês produzindo a sua ressurreição no mundo da música com o bom álbum “The Idiot”, de 1977.

O Queen também será retratado em um documentário mais convencional, em “Day of Our Lives”, com entrevistas com os três integrantes ainda vivos – Brian May, John Deacon e Roger Taylor -, além de entrevistas do falecido Freddie Mercury dos anos 70 e 80.

Embora a música seja o tema principal, talvez o documentário mais dramático seja “Last Days Here”, dos diretores Don Argott e Demian Fenton. eles resgataram um personagem rico da história do heavy metal, o cantor Bobby Liebling, líder do Pentagram, obscura banda dos anos 70 surgida no Estado da Virgínia e que só conseguiu alguma notoriedade e gravar um álbum no final dos anos 80.

Mesmo com a boa repercussão do lançamento do álbum “Last Rites”, em 2011, a banda não se reergueu e os diretores com muito custo conseguiu encontrar o cinquentão Liebling na casa dos pais, completamente viciado em crack e vivendo em condições lamentáveis de higiene de saúde em um anexo da residência.

Bobby Liebling, do Pentagram, em apresentação nos Estados Unidos nos anos 2000

Os diretores, com a ajuda de Phil Anselmo (ex-Pantera, Down), conseguem convencer o músico a dar um tempo no vício e se preparar para aquele que se supõe ser o último concerto do Pentagram – e talvez da vida de Liebling – em um bar no interior dos Estados Unidos.

Durante a gravação e produção, Anselmo, Argott e Fenton fazem um desafio: financiam a reunião da formação original da banda com uma condição: o vocalista deve deixar o crack e voltar a cantar.

Filmado em clima de reality show, tem alguns momentos apelativos, mas tem sensibilidade para mostrar um drama de um músico que não atingiu o sucesso e todos os problemas que isso acarretou na vida de Liebling. É candidato a ser o grande filme do festival.

Mais informações podem ser acessadas no endereço http://in-edit-brasil.com/.

Serviço:

IN-EDIT BRASIL 2012

De 1º a 10 de junho em São Paulo
As sessões do IN-EDIT BRASIL 2012 terão acesso gratuito ou a preços populares.
Salas:
MIS-SP – Av. Europa, 158 – Jd. Europa
CineSESC – Rua Augusta, 2075 – Cerqueira César
Cine Olido – Av. São João, 473 – República
Cinemateca Brasileira – Largo Senador Raul Cardoso, 207 – Vila Clementino
Cine Livraria Cultura – Conjunto Nacional – Av. Paulista, 2073 Bela Vista
Matilha Cultural – Rua Rêgo Freitas, 542 – República

 

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