A difícil missão de substituir um ídolo

Estadão

28 Junho 2011 | 09h00

Roberto Capisano Filho

Substituir um ídolo em uma banda consagrada talvez seja uma das tarefas mais difícieis que um músico possa enfrentar. Que o diga Steve Morse, guitarrista do Deep Purple. Apesar de fazer parte da banda desde 1994, em recente entrevista, ele admitiu que assumir o lugar de Richie Blackmore teve seu preço.

“Você entra nessa situação sabendo que uma porcentagem dos fãs vai odiar isso, não interessa quanto você toque bem ou o que quer que você faça. Muitos fãs gostam da banda de um jeito só; se um outro músico entra no grupo, eles não gostam. Não interessa quem seja, que músicas componha ou se ele é melhor que o sujeito que estava antes. Alguns fãs simplesmente vão dizer que não gostam dele”, afirmou Morse.

E ele diz isso com conhecimento de causa. Substituir o lendário Blackmore é uma missão ingrata. Afinal, além de ser um dos fundadores do Deep Purple, ter uma técnica apurada, estilo único e genialidade para compor verdadeiros hinos do rock, Blackmore sempre foi uma figura muito carismática dentro do cenário musical.

Morse, porém, soube assumir a guitarra do Deep Purple com maestria. Ele impôs seu talento e firmou-se na banda. Segundo Morse, quando entrou no Deep Purple, ele procurou trazer algo novo para o conjunto. “Foi uma oportunidade para eu trazer algo novo. Como fã da banda, eu senti que eles precisavam de algo, de uma nova atitude.”

Morse conta que o entrosamento com os outros integrantes do grupo foi imediato. “Com uma hora de ensaio estávamos rindo e batendo nas costas dos outros dizendo “‘Certo, isso vai funcionar!'”.

A entrada de Steve Morse no Deep Purple no lugar de Richie Blackmore é um exemplo bem sucedido. Há outros tantos casos no rock, porém, em que a coisa não dá certo. E não estou falando daquelas situações citadas por Morse em que o fã da banda simplesmente se recusa a aceitar o novo integrante.

Por mais que o novo músico faça sua parte e tenha seu talento, a banda nunca mais é a mesma. Ou seja, a saída de um músico deixa uma lacuna no grupo que não pode ser preenchida.

Entre saídas e entradas, há ainda aquela situação clássica em que um integrante deixa o grupo para seguir carreira solo e o prejuízo é de todos. O conjunto nunca mais é o mesmo e o músico que optou por ficar sozinho não emplaca. É aquela história: o sujeito pensa que pode seguir sozinho sem precisar da banda que o fez se destacar. No entanto, a realidade é bem diferente e ele não consegue repetir o mesmo sucesso que tinha com os ex-companheiros de palco. Por sua vez, o grupo não consegue um substituto que funcione. Ambos caem num limbo musical. Às vezes eles se reúnem novamente e o equilíbrio é restaurado. É a tal da química.

Por fim, há exemplos de grupos que acabam quando um de seus membros sai. Quem quiser fazer esse exercício de memória certamente vai lembrar de episódios assim.

Portanto, sorte nossa que Steve Morse conseguiu substituir (e bem) Richie Blackmore no Deep Purple. Seria muito ruim sermos privados do som dessa banda quando seu guitarrista original resolveu investir em outros projetos.