A cabeça de Marcelo Nova

Estadão

19 de agosto de 2012 | 06h54

Paulo Severo da Costa

Em uma de suas entrevistas, MARCELO NOVA disse que o único livro de auto-ajuda que leria seria aquele escrito por ele e, tendo como único destinatário, ele próprio. MARCELO nunca se adaptou a nada: nem ao mainstream, nem à rigidez cadavérica das gravadoras dos anos 80, nem a pressão por mudar o nome da banda que criou e liderou, nem a autoridade nenhuma.

 O baiano, nascido em 1951, na Bahia, queria mesmo é avacalhar com a mediocridade, a hipocrisia que segundo ele, julgava ser um cancro soteropolitano – até descobrir que o Brasil era um paciente terminal, vítima da mesma moléstia. MARCELO, que nasceu junto com o rock n’roll, queria achincalhar, “chutar o saco” da sociedade carcomida por seus próprios demônios, escondida atrás de sua própria indolência e futilidade.

 MARCELO gosta de BYRDS, TROGGS, MARIANNE FAITHFUL e idolatra BOB DYLAN. MARCELO é uma mistura da atitude anárquica com Macbeth, Sid Vicious e Proust, do beatnik com a notícia do jornal de ontem – é analógico, e não digital, é Polaroid não Linnux, representa o velho e não o novo. 

Marcelo Nova posa em frente a sua enorme coleção de vinis (FOTO TIAGO QUEIROZ/AE)

Quando questionado sobre a mudança do nome de sua banda-que ele batizou-sugeriu, de pronto á gravadora Som Livre:”Capa de Pica”. A banda, então com três anos, com disco já lançado, teve de esperar mais dois anos para prosseguir gravando. MARCELO diz que dormia em um apê minúsculo, com o nariz enfiado no pé de ROBÉRIO, baixista do Camisa- e assim ficou, por mais um bom tempo. 

MARCELO tem que responder, em toda entrevista que dá, sobre a parceira com Raul. Tem de ouvir um monte de besteira sobre ter pego carona em um “pobre e debilitado” homem em fim de carreira e, certa vez, teve de ouvir uma declaração de um integrante da “pop-rastaqüera- qualquer coisa- music” que teria sido uma “má influência” para Raul-tipo um menino mal educado de colégio – que pervertera RAULZITO, levando-o ao “mau caminho”. 

MARCELO gravou disco acústico (antes disso virar moda), rock n’roll visceral (quando só se tocava pagode e sertanejo nas rádios) e um disco recheado de palavrões – “Viva”-quando isso era conduta proibida até dentro de casa. MARCELO nunca se importou com outra coisa que não fosse a sua própria verdade; nunca se vinculou a modismos, nunca usou calça colorida ou mandou o público tirar o “pé do chão”.

 Eu acredito em MARCELO NOVA. 

Discografia essencial:

 Com o Camisa:

1983 – “Camisa de Vênus”, 1984 – “Batalhões de Estranhos”,1986 – “Correndo o Risco”,1987 – “Duplo Sentido”,1996 – “Quem É Você?”

Carreira solo:

1988 – “Marcelo Nova e a Envergadura Moral”,1989 “A Panela do Diabo”,1991 –” Blackout”,1994 – “A Sessão sem Fim”,1998 – “Eu Vi o Futuro, Baby. Ele É Passado”,2005 – “O Galope do Tempo”

 

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