A busca cínica do velho otimismo pelo Franz Ferdinand

Estadão

20 de agosto de 2013 | 17h00

Jotabê Medeiros – O Estado de S.Paulo

Ao contrário de Naomi Campbell, Dionne Warwick, Pat Metheny, Nick Cave e outros estrangeiros que viveram no Brasil (e se tornaram figurinhas tão fáceis que o pessoal dizia “lá vem aquele gringo chato de novo”), o grupo escocês Franz Ferdinand é um habitué cada vez mais amado pelas plateias nativas.

 Franz Ferdinand volta à química de harmonias do seu primeiro disco - Divulgação

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Franz Ferdinand volta à química de harmonias do seu primeiro disco

A banda, que só tem pouco mais de 10 anos de existência, já veio seis vezes ao País. Por isso, não foi surpresa para o baixista Bob Hardy quando eles foram tocar num pub de Londres seu novíssimo disco, Right Thoughts, Right Words, Right Action (Sony Music), no mês passado, e o grosso da audiência era de… brasileiros. “Havia fãs brasileiros em todo lugar, e a fila na frente do Victoria Pub já começava desde as 10 horas da manhã”, exclamou o músico, falando por telefone ao Estado para comentar sobre o lançamento mundial do álbum essa semana.

O disco novo (o último álbum fora Tonight: Franz Ferdinand, de 2009) chega às lojas do mundo todo ao mesmo tempo, no dia 26, e é o resultado de um work in progress do grupo de Glasgow. Muito show surpresa em lugares pequenos, uma música ou outra sendo testada em festivais – como fizeram aqui em São Paulo no ano passado, no Lollapalooza Festival.

“Nós começando tocando em lugares como aquele pub, shows para 100, 190 pessoas. Acho que, como banda, faz mais sentido aprimorar as canções em contato mais estreito com as pessoas. É também muito divertido para quem está na plateia. Nós todos costumamos ir a pubs para ver bandas que gostamos”, contou Hardy.

Nas 10 faixas, o Franz Ferdinand volta à química de harmonias do seu primeiro disco. Quase nada muda, mas o resultado é sempre um dance rock delicioso, um passo adiante do pós-punk. O disco inteiro nasceu de um insight inusitado: Alex Kapranos, o vocalista, guitarrista, cantor e compositor da banda, achou um cartão postal num mercado de pulgas. Nele estava escrito: “Come home, pratically all is nearly forgiven” (“Venha pra casa, praticamente tudo está quase perdoado”).

Esse é o verso inicial de Right Action, a canção que abre o disco. “Tem um sabor de boa vontade, de esperança nesse verso, e a estrutura da canção é interessante, vai num crescendo”, analisa Hardy. Uma espécie de “busca cínica do otimismo”, como explicou Alex Kapranos. Uma contradição em termos, mas na canção Goodbye Lovers and Friends ele ironiza: “Não toque música pop/Você sabe que eu odeio música pop/Apenas toque a música que o ateu criou”.

Em seguida, Evil Eye cuida de espantar qualquer confusão com fé extremada. A música é marcada por uma batida mais esquizofrênica, com rasgos de guitarra e distorção de algo que parece um theremin. Love Illumination, a canção seguinte, é uma balada guitarreira que fala de elevação, da necessidade de amar ao outro, de buscar um amor, é quase uma canção da fase Racional do Tim Maia. Stand on the Horizon é a Take me Out da vez, mais um roquinho acelerado com um timing perfeito entre ritmo e aceleração, entre vocais e solos.

Em Fresh Strawberries (que tem vocais de apoio de uma convidada, a cantora Roxanne Clifford, da banda Veronica Falls), o grupo parece prestar tributo evidente à maior banda britânica de todos os tempos, os Beatles. “Acho que as canções revelam um pouco os nossos gostos, mas não há nunca uma decisão consciente de soar assim ou assado. Muitas vezes, falam em coisas que nem consideramos. Tem horas que falam em Beatles, mas eu ouço mais The Specials”, disse Hardy.

Em Bullet, a fórmula de ataques simultâneos e corinhos que os tornou famosos, além dos refrões irresistíveis. “I’ll never get your bullet out of my head, baby!”. Bob Hardy fala com entusiasmo de The Universe Expanded, “certamente uma das minhas preferidas no disco”. O motivo é fácil de ouvir: é a que tem o baixo mais destacado, um toque meio retrô, meio jazzístico na coisa toda. Começa com um clima sci-fi anos 1950, um alarme de radioatividade no fundo, e vai evoluindo para uma pegada totalmente Chris Isaak.

O Franz Ferdinand não teme nenhum gênero. Brief Encounters é um reggae que poderia ser assinado por Joe Strummer. Já Treason! Animals se dissolve num tsunami de teclados. Formado desde sempre por Alex Kapranos, Bobby Hardy, Nick McCarthy e Paul Thomson, o grupo é uma prova que o rock pode perfeitamente conviver com a simplicidade e o anti glamour.

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