A batida essencial de Paul Motian

Estadão

26 de novembro de 2011 | 22h31

Jotabê Medeiros

Morreu em Nova York em novembro, aos 80 anos, o baterista Paul Motian, um dos mais inovadores nomes do seu instrumento e da vanguarda jazzística. Ele tocou no Bill Evans Trio nos anos 1950 e 1960 e foi fundamental no quarteto de Keith Jarrett nos anos 1970. Motian sofria de síndrome mielodisplásica (SMD), um tipo de doença hematológica que evolui para leucemia aguda. Não deixou filhos.

“Paul Motian esteve e sempre estará na batida dos nossos corações”, disse um dos grandes do jazz, o baixista Charlie Haden (que tocou com Motian no quarteto de Jarrett). O baterista emprestou suas baquetas a meio mundo: do saxofonista Joe Lovano ao guitarrista Bill Frisell, com quem manteve um trio, ao pianista Masabumi Kikuchi e os saxofonistas Greg Osby e Chris Potter. Em 2003, veio ao Brasil para o extinto Chivas Jazz Festival com sua Electric Bebop Band.

“Estiloso e alerta, usava óculos escuros mesmo no escuro e ria alto e frequentemente”, como lembrou Ben Ratliff no New York Times, Stephen Paul Motian nasceu na Filadélfia em 25 de março de 1931, de origem armênia, e ingressou na Marinha em 1950. Estudou música em Washington e navegou pelo Mediterrâneo até 1953, quando se estabeleceu no Brooklyn.

Em 1955, conheceu Bill Evans, e ficou até o fim daquela década trabalhando com o pianista e o baixista Scott LaFaro. A maioria dos críticos admite que a equação entre os instrumentos naquele trio estabeleceu as bases para o que hoje conhecemos como o moderno piano-trio jazz. Sua batida é responsável por boa parte do estilo que se criou a partir do pós-bop.

Paul Motian (FOTO: (Hiroyuki Ito/The New York Times))

A partir dos anos 1960, esteve em grupos com Lee Konitz, Warne Marsh, Mose Allison, Tony Scott, Stan Getz, Johnny Griffin e, durante uma semana, Thelonious Monk. Tocou um ano com o vanguardista Paul Bley. Com Keith Jarrett, Motian foi além da marcação característica do swing e começou a improvisar com mais liberdade, ou tocando fora da forma melódica. “Ele era um economista: cada nota e frase contavam. Nada era descartável”, declarou seu ex-parceiro Greg Osby.

Não buscava o jazz como forma consagrada, mas como veículo para a experiência da linguagem. Isso o levou a trabalhar com Carla Bley, Charles Lloyd e também com a Charlie Haden’s Liberation Music Ensemble (deixando para lá a chance de ser o segundo baterista de John Coltrane). Em 1972, gravou pela primeira vez como bandleader. Era o disco Conception Vessel, pela ECM. Em 1977, criou um grupo regular, que tinha Joe Lovano como saxofonista.

Em 1988, deixou a ECM e assinou com a JMT, pela qual gravou alguns álbuns festejados, como o primeiro deles, Monk in Motian – costumava brincar com seu sobrenome e com a palavra motion, movimento. Por sinal, um tipo de definição também de sua filosofia de vida.

Nos anos 1990, formou a Electric Bebop Band, para a qual recrutou Joshua Redman. Em 1998, Motian assinou com o selo Winter & Winter, no qual começaria a gravar uma série de álbuns, começando com 2000 + One in 1999, Europe in 2001 e Holiday for Strings (2002). Em 2005, voltou a gravar pelo ECM, lançando I Have the Room Above Her (2005), Garden of Eden (2006) e Time and Time Again (2007).

No show em São Paulo, em 2003, no Citibank Hall, Motian veio como bandleader e teve de aguardar, durante 10 minutos, para que técnicos consertassem a amplificação do baixo elétrico do músico Andres Christensen. Toda a banda ficou parada, esperando o acerto, e o público aguardando.

Só então The Electric Bebop Band atacou Split Decision, composição do próprio Motian. Com formação insólita (duas guitarras, baixo, dois saxofones), o grupo mostrou uma noção moderna da execução de standards, e o baterista que evitava os solos pirotécnicos.

Tocaram músicas de Thelonious Monk (Brilliant Corners) e Charlie Parker (Quasimodo) e mostraram diversas composições do próprio Motian. Digressões infinitas e quase matemáticas de baixo elétrico e bateria contrapunham-se à rede sutil de acordes das guitarras de Steve Cardenas e Jakob Bro. Mas parte do público inquietou-se com os achados vanguardistas da banda.

Em 1961, Motian tocou no álbum Nirvana, um disco capital de dois gênios do jazz, o flautista Herbie Mann e Bill Evans. Tinha como missão criar uma nova propulsão rítmica para as baladas do “revolucionário calado”, Bill Evans, que por sua vez criou sua arte montado numa base erudita que tinha como fontes Ravel e Chopin.

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