74 anos ligado nos 220 do blues

Estadão

05 de dezembro de 2010 | 19h24

Roberto Nascimento

Não é preciso ouvir muito de “Living Proof” para perceber que, aos 74 anos, Buddy Guy ainda está longe da aposentadoria.

Um minuto e trinta e dois segundos, precisamente, é o tempo que o veterano bluesman leva até transformar um pacato disco de blues em um característico tour de force do gênero: vocais uivantes, guitarras incendiárias, amplificadores em curto-circuito desfazem, logo no início da faixa “74 Years Young”, qualquer indício de repouso geriátrico que se possa esperar de um septuagenário.

Nos vocais, Buddy se gaba de estar cheio de vitalidade, apesar dos três quartos de século, ou, com safadeza, de que sua chave não cabe na fechadura da namorada.

A energia instrumental corresponde: os improvisos são prolixos, cheios de técnica; mordem como cão raivoso; cortam, serram e eletrocutam com uma virilidade quase bizarra para um guitarrista que, há mais de 40 anos, já deixava registros vanguardistas que serviriam de bê-á-bá musical para Eric Clapton, Jeff Beck, Jimmy Page, Stevie Ray Vaughan e Jimi Hendrix – este, que em um dos melhores exemplos de evolução estilística no rock, levou o blues ruidoso de Buddy além dos horizontes “noise” para onde apontavam.

Mas enquanto a hiperatividade de Buddy é – e sempre foi – digna de uma menção no Guinness, sua alta voltagem em “Living Proof” extrapola a dinâmica emocional que faz um grande disco de blues. O ímpeto das faixas é nivelado sempre entre o mezzo forte e o fortíssimo (como faria seu pupilo Stevie Ray), e a oportunidade de fazer um contraponto mais profundo, que remeta à sinceridade dolorida das raízes do gênero, se perde.

 Onde poderia sobressair a maturidade característica que só um mestre com tantos anos de estrada possui, há a prova redundante de que o guitarrista ainda é páreo para qualquer molecote que empunhe uma guitarra. A presença de B.B. King em “Stay Around a Little Longer” nos lembra que, no blues, volume e quantidade de notas dizem pouco. Mas Buddy quer mesmo é farrear até o fim do baile.

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