30 anos de Smiths: o tempo melhorou as músicas, mas só um pouquinho

Estadão

14 de maio de 2013 | 07h00

Marcelo Moreira

Há bandas que melhoram com o tempo (mas não muito), especialmente depois que acabam. O chamado movimento pós-punk inglês legou algumas pérolas do mundo pop que eram motivo de abominação por parte de quem ouvia rock pesado nos anos 80 no Brasil. Por sua presença maciça e constante nas emissoras de rádio, muitas vezes movida a jabá (gravadora pagando para que uma música tocasse muito nas rádios), logo bandas como The Cure, The Smiths, Sisters of Mercy, Siouxsie and the Banshees, Echo and The Bunnymen e muitas outras viraram alvo dos roqueiros mais radicais – dos metaleiros aos punks. Eram bandas pop demais e com qualidade bastante questionável.

Os Smiths só duraram quatro anos, mas deixaram inegavelmente um legado importante. Queiram ou não, fizeram um som diferente daquele pastiche pop que predominava nas paradas e nas emissoras de rádio – só Smiths, Echo e The Cult se salvavam. O legado foi bem explicitado e analisado por texto publicado no site da BBC.

Nesta semana fez 30 anos do lançamento do primeiro single do quarteto de Manchester, “Hand in Glove”. Sempre considerei The Smiths uma das bandas mais superestimadas do rock, na mesma categoria que os brasileiros dos Mutantes. As bandas subiram um pouquinho só no meu conceito ao longo dos anos, com a cotação dos Smiths sendo ligeiramente maior.

A banda inglesa simbolizou para parte do público roqueiro dos anos 80 o que de pior existia no mundo pop: som cheio de efeitos nas vozes e nas guitarras, letras pseudo-intelectuais com fundo pseudo-existencialista e um cantor fraco, que ainda assim teve o mérito de ter criado um estilo de cantar. Era uma banda supostamente alternativa, que foi adotada por um público supostamente alternativo, que desconhecia totalmente o conceito do grupo, mas que aderiu por representar o que “era moderno” na época, ou seja, entre 1985-1987.

E realmente os moderninhos abraçaram a estética blasé dos Smiths no Brasil, algo que o grupo sequer imaginou. Aliás, os que se diziam “modernos” e “antenados” tinham vários ícones: os Smiths eram adorados pelos que queriam aparecer, ser vistos e reconhecidos como verdadeiramente “antenados”; Matt Bianco e Style Council, com sua música soft mais próxima do jazz e da bossa nova, eram venerados por aqueles que insistiam em não ser “rotulados”, que odiavam ser chamados de “roqueiros”, e que ouviam qualquer porcaria produzida pela MPB da época só para posarem de ecléticos; e o Durruti Column e Jesus and Mary Chain, que tinham como seguidores os radicais do pop e esquisitões por vontade própria.

Smiths era uma banda com total falta de pegada, de adrenalina, algo que, deliberadamente ou não, parecia totalmente antirock, com uma estética ao mesmo tempo elitista e anticomercial. Falava-se muito em Johnny Marr como gênio da guitarra, com seus barulhinhos esquisitos e efeitos enjoativos.

Trinta anos depois a audição de alguns clássicos da banda mostra que havia alguma qualidade no trabalho do quarteto. Por mais irritante que seja, os Smiths produziram algumas músicas inspiradas e os barulhos de Marr fazem um pouco de sentido, mostrando um instrumentista de bom nível e realmente criativo no marasmo coalhado de cures e siouxsies dos anos 80.

The Smiths a banda diferente daquela época e a que demonstrou maior originalidade, ainda que a repetição dos temas e mesmice rítmica dominasse parte da obra. “The Queen is Dead” e “Hatful of Hollow” são álbuns que merecem ser escutados com atenção. Não sejam brilhantes, muito longe disso. Trazem sons de certa qualidade que são característicos de uma época em que a porcaria total dominava as FMs.

Às vezes o revisionismo faz sentido, embora normalmente não passe de revanche equivocada ou de tentativas de explicações tardias. Não faz diferença. Smiths, na verdade, nunca foram lá essas coisas, mas não eram a porcaria que muita gente achava que era. O tempo ajudou a melhorar a música dos Smiths – mas só um poquinho.

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