Poucos se salvam no Rock in Rio; festival começa mesmo nesta semana

Estadão

16 Setembro 2013 | 06h45

Marcelo Moreira

Poderia ser qualquer festival, em qualquer lugar, recheado de atrações insossas, deslocadas e sem carisma. Mas lamentavelmente leva o nome de Rock in Rio e ocorre no Rio de Janeiro. Quando o maior destaque de três é um grupo fraco como Offspring, já é possível ter uma ideia do desastre artístico do evento. E olhe que o grupo pseudo-punk norte-americano fez um shows até que razoável, provando que deveria estar no palco principal.

Living Colour nadou de braçada no primeiro final de semana do Rock in Rio. Mostro qualidade e carisma, tudo o que faltou para as demais atrações – estamos aqui considerando apenas artistas que possam ser enquadrados como rock, ainda que levemente, com desprezo total para coisas abomináveis como Beyoncé, Justin Timberlake, Alicia Keys e cantoras baianas desastradas e intrometidas.

Vamos também esquecer as tristes homenagens perpetradas por artistas equivocados a Cazuza e Raul Seixas. Quem inventou tais atrações deveria ter zelado pelo que seria visto em cima do palco. Entre o constrangedor e o patético, nada se salvou nos tais tributos. Até mesmo respeitável Ney Matogrosso, com sólida carreira e trabalho eventualmente elogiado nos anos 80, sucumbiu à falta de discernimento no tributo a Cazuza – ele tentou, mas não conseguiu segurar a onda em suas partes e escorregou na afinação em alguns momento. O que deveria ser um musical se transformou em um show de horrores.

Entre os brasileiros, totalmente coadjuvantes, ninguém fez feio, mas dificilmente lembrarão destes shows, ou serão lembrados pelo público. Também tentaram fazer o possível diante da escalação equivocada, espremidos entre atrações pop e de qualidade questionável. Diante do quadro adverso, eis que Nando Reis ousou e fez um show um pouco diferente do habitual, mais dinâmico e sem muitas concessões. Aparentemente não recebeu muita atenção, mesmo com os esforços do convidado Samuel Rosa, mas foi corajoso e audacioso. Saiu ganhando em um evento medíocre até então.

Jota Quest também teve saldo positivo fazendo o de sempre, sem novidades e sem ousar. Costuma entrar com o jogo ganho, seja onde for, com qualquer plateia – o que é um grande mérito. Desfilou hits, evitou trombadas e qualquer tipo de audácia. Levou ao extremo a intenção de apenas agradar e entreter. Ainda que se questione a qualidade de parte da obra da banda, não dá para negar: no palco são muito bons e costumam deixar difícil a vida para quem vem depois deles em festivais.

Nando Reis e Samuel Rosa: ex-titã surpreende com show muito bom e sem muitas concessões (FOTO: WILTON JÚNIOR/ESTADÃO)

O Capital Inicial fez um show elogiado e energético em 2011 e ganhou destaque também pela crítica política, em especial contra o senador e ex-presidente José Sarney (PMDB-AP). O quarteto tentou repetir a dose, mas não foi tão bem-sucedido. O show da banda brasiliense caiu na mesmice de sempre, nos mesmos maneirismos e na forçação de parecer eternamente jovem.Houve alguns brados contra os políticos, mas nada digno de nota.

Dinho Ouro Preto ainda é um grande líder de banda no palco, mas seu repertório de truques está diminuindo. Xingou novamente os políticos, com destaque a Sergio Cabral (PMDB), governador do Rio de Janeiro, sendo acompanhado por Santa Cruz, mas não conseguiu oferecer algo mais ao público. a banda tenta soar mais pesada a cada grande evento que participa, mas em algum momento trava, e o peso fica escondido, por mais que Yves Passarell,  o grande guitarrista da banda, se esforce. No mar de mediocridade que não era rock, o Capital Inicial foi bem, mas poderia ter ido bem melhor.

A politização do evento ocorreu mesmo em um dos mais desastrados shows, o equivocado Viva Raul Seixas. Foi estranho ver o Detonautas entoando alguns dos hits do cantor baiano. Não combinou, deixando no ar o tamanho do engano do show e dos convidados a participar do “tributo”. O cantor do Detonautas, Tico Santa Cruz, tentou puxar coro contra o governador Sergio Cabral. Ganhou alguns aplausos, e nada mais. O protesto político ficou soterrado diante do show equivocado. E tudo piorou ainda mais quando o vocalista bradou contra a proibição de mascarados em protestos, em explícito apoio à baderna, à violência e ao vandalismo. O equívoco, neste caso, deu lugar à completa insanidade.

Living Colour foi de longe a melhor coisa do festival até agora. Pesado, alegre, seguro e virtuoso, o grupo não teve trabalho para arrebanhar a galera do palco Sunset. A presença da cantora Angelique Kidjo foi interessante, mas o que chamou a atenção mesmo foi a qualidade estupenda dos músicos, entrosadíssimos e felizes por estarem ali. Espontâneos e descontraídos, deixaram ainda mais evidente o tamanho do erro em colocá-los em um palco secundário e em um dia repleto de atrações de qualidade bastante duvidosa.

Os ingleses do Muse estiveram a ponto de fazer um grande show, mas, como acontece com o trio em algumas mais vezes, os músicos se fecharam em uma redoma pseudo-progressiva e deram a impressão de que estavam tocando para eles mesmos. Não é uma grande usina de hits, embora seja um dos melhores grupos surgidos no século XXI, e deixaram um pouco a desejar no quesito energia. Nada que comprometesse o show, mas faltou algo na apresentação do trio. Florence + The Machine e 30 Seconds to Mars fizeram shows corretos, mas nada demais, a não ser que ainda não têm estofo para tocar no palco principal de um festival do porte do Rock in Rio.

A bola de segurança em um mar de atrações que espantou o rock era Marky Ramone e sua banda. Presença constante no Brasil, fez aquilo que se prometeu: punk rock na veia e alguns clássicos dos Ramones. Tem sido assim há 15 anos e competência não falta ao baterista. Com o convidado especial Michale Graves (Misfits), acertou em cheio com um repertório matador, pesado e veloz, agradando a quem se dispôs a procurar com paciência pelo rock nos primeiros três dias do festival.

Como ensaio geral para o verdadeiro Rock in Rio, na semana que vem, o evento foi reprovado em termos artísticos. Como era esperado, teve rock de menos e popices demais. Os roqueiros sofreram nos primeiros três dias e quem ignorou a primeira parte do festival saiu ganhando. Que venham os mestres Metallica, Iron Maiden e Slayer, com seu séquito de discípulos que fazem rock de verdade.

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