'13' redime o Black Sabbath, que reaparece com grande álbum

Estadão

04 de junho de 2013 | 06h40

Marcelo Moreira

O Black Sabbath conseguiu o seu maior feito em 2013 desde que Ozzy Osbourne saiu da banda em 1979: não soar como uma banda cover de si mesmo. O novo álbum, “13”, o primeiro com a voz de Ozzy em 35 anos contendo músicas inéditas, mostrou toda a classe de músicos de primeiro nível e calou aqueles que torciam para que houvesse uma patética tentativa de resgatar o passado.

A audição do novo álbum, que será lançado em vários formatos no dia 11 de junho, foi liberada para poucos jornalistas em São Paulo entre os dias 1º e 2 de junho, com o streaming (pode-se ouvir na internet, mas não baixá-lo) liberado no dia 3 somente dentro do site da loja virtual iTunes, da Apple.

Não se trata de uma obra-prima, mas é um álbum de qualidade e com o DNA da banda. Uma volta em alto nível, assim como foi “The Devil You Know”, o álbum do Heaven and Hell lançado em 2009 – com a formação do Black Sabbath que tinha Ronnie James Dio e Vinnie Appice (bateria).

Assim como o Deep Purple voltou inspirado com “Now What?”, o Black Sabbath mostrou que entrou no estúdio afiado. À primeira audição o ouvinte menos familiarizado com o som do grupo pode achar as composições um tanto repetitivas, com a mesma estrutura copiada por todas as bandas de doom metal surgidas a partir dos anos 90 – e que veneram o Sabbath.

“End of the Beginning” e “God is Dead?” até dão a impressão de replicarem a fórmula do hino “Black Sabbath”, mas quando riff principal de guitarra entra nas duas faixas o peso explode nos fones e nos falantes. Um trabalho bem feito de guitarras e um baixo gordo e muito denso, na melhor tradição de “Children of the Grave”, outro hino do heavy metal.

Um temor manifestado por alguns fãs era o de que o Ozzy versão século XXI cantaria no álbum como se acostumou a cantar em sua carreira solo após 1980, em tons mais altos e eventualmente “gritando” um pouco mais. Esqueça isso. Ozzy canta na medida certa, como se esperava em um grande álbum da banda.

“Loner” mostra uma certa similaridade com “Voodoo”, cantada por Dio no álbum “Mob Rules”. Não tão pesada, tem uma levada quase hard, em um belo trabalho de guitarras e solos bluesy. A balada “Zeitgeist” surpreende com um arranjo sombrio e arrastado, com uma percussão cadenciada e violões em profusão, com uma levada folk muito interessante e solos de guitarra semi-acústica. Seriam ecos de “Planet Caravan”?

A boa sequência sofre uma pequena quebra com “Age of Reason”, que não apresenta grandes novidades em sua estrutura simples e que remete aos trabalhos da banda pós-“Sabotage”. O destaque, mais uma vez, são as guitarras. Não é ruim, mas destoa um pouco do alto nível das demais faixas.

 

A coisa melhora novamente com “Live Forever”, com um andamento mais acelerado e toques mais modernos, mas sem nunca descaracterizar o som característico do grupo. É Black Sabbath na veia, com uma letra bem sacada sobre vida, morte e eternidade. Ozzy se mostra bem à vontade.

O substituto do baterista Bill Ward no estúdio, Brad Wilk, do Rage Against the Machine, fez o que se esperava dele: discreto, correto e com pegada forte e pesada. A produção não privilegiou a bateria, talvez para não evidenciar a falta que o membro original da banda faz, com sua batida pesada e inconfundível.

“Tentamos esperar que Bill resolvesse suas questões e mudasse sua postura e opinião em relação ao projeto, mas não dava para ficar parado indefinidamente”. Tínhamos de resolver a questão e infelizmente não pudemos esperá-lo”, afirmou o guitarrista Tony Iommi na semana passada ao site inglês Blabbermouth.net.

“Damaged Soul”, a sétima faixa, pesadíssima, resgata o passado bluesy do Black Sabbath, característica muito presente nos primeiros dois álbuns da banda. Os vocais de Ozzy, com leve sujeira e lembrando um cantor de boteco de beira de estrada, mostram versatilidade e bom gosto, até mesmo para acompanhar uma levada ligeiramente jazzística no solo principal de guitarra. O segundo solo de guitarra é um primor de técnica e feeling, ajudando a tornar a faixa a melhor de “13”.

O álbum encerra com uma pedrada, “Dear Father”, uma música nostálgica e com letra um pouco melancólica, temperada com riffs muito pesados de guitarra e baixo. Ozzy novamente mostra uma versatilidade na condução dos vocais, lembrando bastante algumas músicas de seus dois últimos álbuns solo.

Uma versão limitada do álbum, que será vendida inicialmente pelo iTunes, terá mais três músicas não incluídas na versão “normal”: “Methademic”, “Pariah” e “Peace of Mind”, das quais a primeira foi executada em alguns shows na Oceania em maio.

Mesmo com um grande álbum prestes a ser lançado, o quarteto – Tommy Clufetos, da banda solo de Ozzy, assume a bateria na turnê mundial – demorou um pouco para engrenar nos shows iniciais na Nova Zelândia e Austrália. Ozzy demonstrou um pouco de dificuldade nas músicas mais aceleradas, mas deu conta do recado e já se mostrava bem mais à vontade ao final da miniturnê de aquecimento.

A banda reinicia os shows no final de junho em uma turnê pelos Estados Unidos e Canadá até o comecinho de setembro. Haverá uma pausa de um mês para o início dos shows na América Latina, passando por Colômbia, Chile, Argentina, México e Brasil.

Por aqui serão três shows – dia 9 de outubro em Porto Alegre, dia 11 em São Paulo e dia 13 no Rio de Janeiro. Nova pausa de um mês ocorre após o show do México para a turnê europeia, em novembro. A expectativa é de que a banda esteja mais adaptada às condições atuais de turnê – todos têm 65 anos de idade, sendo que Ozzy ainda sofre com sequelas de anos de abuso de álcool e drogas e Tony Iommi ainda está em tratamento contra um câncer.

Mesmo em um ano onde teremos Rock in Rio novamente e um show com Iron Maiden e Slayer em São Paulo, a presença do Black Sabbath com Ozzy Osbourne no Brasil é o evento do ano.

E o álbum novo já é, desde já, candidato a entrar nas listas de melhores de 2013, além de, eventualmente, se tornar um grande epílogo para uma das maiores glórias do rock. A celebração já começou.

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