Vida longa a Alice?

Estadão

12 de maio de 2010 | 08h00

Será que uma propaganda massiva em torno de um Blockbuster é item realmente indispensável para o filme fazer sucesso? A bilheteria de estreia de Alice no País das Maravilhas, de Tim Burton, não mente: 875 mil pessoas estiveram presentes nas salas de todo o Brasil durante seu primeiro fim de semana. O público foi recorde das produções da Disney no País e 12% superior ao número anterior da distribuidora, guardado por Piratas no Caribe 3.

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Mas nós do Cinema reparamos que muita gente tem saído da sessão decepcionada. Não podemos dissociar esse fato da reclamação geral que ouvíamos diariamente antes da obra estrear: ninguém aguentava mais maquiagem da Alice, roupa da Alice, colares da Alice, capas de chuva,  bijuterias e acessórios, conjunto de porcelana da cena do chá… ufa! Tantas marcas buscaram se promover às custas da nova versão do livro de Lewis Carrol que ficou chato. Mas a que ponto essa superexposição atrapalha, de fato, a vida útil de um filme, tanto no quesito ‘bilheteria’ como ‘importância da obra para a história do cinema’?

O crítico e Doutor em Cinema pela Universidade Paris 3, Pedro Maciel Guimarães, acredita que a propaganda gerada pelo boca-a-boca só faz diferença para produções pequenas e não tem qualquer influência em bilheterias de grandes filmes. “Não acho que a decepção que o filme tem gerado se deve à sua espetacularização. Só que adaptar uma obra como essa, de que todo mundo tem referências inclusive imagéticas advindas de livros e filmes anteriores, sempre passa pelo risco de desapontar”, afirma.

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Para ele, a melhor campanha pré-estreia de um filme foi feita em 1999 com o marketing viral de A Bruxa de Blair. Vale lembrar que, na época, um site informava aos curiosos que tudo o que eles veriam nas telonas havia realmente acontecido. Muita gente acreditou e foi conferir o filme instigada por esse aparente excesso de realidade. “Tim Burton acerta quando faz roteiros originais, como em Noiva Cadáver. Quando mexe em vespeiro, mesmo caso de A Fantástica Fábrica de Chocolate, acaba errando a mão”, diz Pedro.

No terceiro fim de semana em cartaz, Alice perdeu a liderança na bilheteria – mas não na arrecadação, devido ao preço maior dos ingressos nas salas 3D – para Homem de Ferro 2. A queda, provavelmente, não foi causada pela propaganda negativa de quem não gostou, já que a maioria das pessoas que não tem vasto conhecimento sobre diretor ou obra decide assistir pela comoção geral que existe com um grande lançamento. Essa estratégia é decorrente da campanha de divulgação – muito bem planejada pela distribuidora.

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O extenso marketing, porém, serve para atrair o público e manter o filme em cartaz. Em muitos cinemas, Alice… está em mais de uma sala, principalmente com as opções em duas e três dimensões. Com mais salas exibindo o mesmo filme e menos alternativas, a maioria das pessoas busca o filme sem priorizá-lo, e isso garante que a obra permaneça em cartaz. A regra é quase matemática, mas funciona sempre. Então, a não ser que você esteja a fim de colaborar para fazer essa teoria cair por terra, vale apostar na mais nova viagem de Tim Burton. E participar do boca-a-boca, nem que seja para formar sua própria opinião e não se sentir mais por fora do assunto da vez.

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