Um olhar feminino

Estadão

16 de abril de 2010 | 08h00

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O que um cineasta pode fazer para diferenciar o seu filme de outro com a mesma temática? De uns anos para cá, a  tendência das produções nacionais é falar sobre o universo dos mais desfavorecidos nas grandes metrópoles. Como eles vivem? Que dramas enfrentam diariamente? Fala-se dos perrengues, da violência, do abuso de autoridade e do abandono às crianças. Bem, esse não deixa de ser um grande tema. Mas como fazer para um novo filme sobre isso não dar ao espectador a sensação de “mais do mesmo”?

A pergunta é um desafio que a diretora Sandra Werneck buscou superar em seu novo longa, Sonhos Roubados. O filme conta a história fictícia de três personagens, mulheres adolescentes que vivem em uma favela do Rio de Janeiro. Jéssica (Nanda Costa), Sabrina (Amanda Diniz) e Daiane (Kika Farias) foram encontradas no livro que serve de base para o roteiro, As Meninas da Esquina, de Eliana Trindade. Elas se prostituem seja para comer, alimentar a filha, dar remédio para o avô ou simplesmente conseguir pintar o cabelo no salão de beleza.

Assista ao trailer do filme

O longa foi filmado em plano-sequência – uma técnica que não utiliza cortes para emendar as cenas, mas registra cada ação por inteiro. Isso torna a obra mais contemplativa, já que o personagem é quem leva a câmera a se movimentar, o que desfavorece a existência de cenas muito duras ou abruptas. São recursos, como explica a diretora. “É um filme que traz uma mensagem de esperança, que coloca a mulher como protagonista da história. E isso é fato: você vê, nas comunidades, que a maioria dos lares é completamente matriarcal.”

Em 2005, Sandra já tinha feito o documentário Meninas, sobre o dia a dia de garotas grávidas em uma comunidade carente carioca. Esta produção a sensibilizou e mudaria para sempre sua forma de enxergar os laços familiares. “Filho é uma coisa importante, não é para brincar, e eu queria passar a mensagem que eu aprendi com essas meninas a todo mundo que for me assistir”, disse.

Formação do elenco | Para construir esse cenário com naturalidade, a produção realizou mais de cem testes de elenco. As escolhidas para os três papéis centrais passaram por um intenso processo de imersão nas comunidades para entender um pouco mais sobre a vida das garotas que iriam representar. Uma delas, a jovem Amanda Diniz, de 15 anos – que vive uma menina que sofre abuso sexual do tio (Daniel Dantas) e é negligenciada pelo pai (Ângelo Antônio) – chegou a  morar na casa da tia, no Morro do Vidigal, durante todo o período de filmagem. “Eu moro em um bairro que fica na periferia (Santa Cruz da Serra, no Rio), então, para mim, a realidade dessas garotas não era tão distante”, contou, na segunda-feira (12), durante série de entrevistas para divulgação de Sonhos Roubados.

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A protagonista Nanda Costa, 23 anos, que também integra o elenco da novela Viver a Vida no papel de Soraia, disse que nunca se apresentou como atriz às moradoras das favelas que visitou. “Eu dizia meu nome, Fernanda. Queria contar essa história com a maior verdade possível, já que há parte de mim nela – minha mãe também teve filho na adolescência”, disse. Nanda tem trejeitos de artista, mesmo. Para explicar a dificuldade de uma das cenas (o primeiro programa que Jéssica faz no filme, negociado durante um jogo de sinuca) ela se movimentou por toda a sala, recriou olhares e refez a trajetória do momento gravado pelas câmeras. “Precisamos escolher muito bem nossos projetos. Um filme fica para sempre”, refletiu.

Basicamente, o que se conta durante os 85 minutos de exibição é a vida de três meninas que se encontraram no meio do caos e permanecem unidas até o fim. As cenas de sexo e de violência são conduzidas com cuidado suficiente para que não sejam mais chocantes do que a simples ideia desse tipo de situação. Um livro de mulher, filmado e protagonizado por mulheres, mas que serve a todos os gêneros. Sim, é parecido com tudo, não dá para negar. Mas tem esse detalhe, que vale a experiência. Nos cinemas a partir do próximo dia 23.