Um Big Mac sem queijo e alguns nazistas triturados, por favor

Estadão

09 de abril de 2010 | 08h00

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Cenas fortes de violência? Os israelenses amaram

É impossível ir ao cinema, sentar-se na poltrona e apenas ver um filme. Minha opinião? Simplesmente ver uma história ser projetada em sua frente enquanto come uma pipoca e bebe um refrigerante é reduzir a sétima arte a um mero lazer de fim de semana. Não dá.

Foi pensando nisso que em outubro do ano passado, enquanto estava de férias em Israel, resolvi gastar 40 shekeis (aproximadamente R$ 20) para ir ao cinema. Mas na terra do rei Davi, não escolhi nenhum filme conceitual de diretores israelenses como Ari Folman, de A Valsa com Bashir, ou Haim Tabakman, de O Pecado da Carne, ou mesmo alguma adaptação dos livros de Amos Oz. Nada disso. Escolhi Quentin Tarantino. O filme: Bastardos Inglórios. O motivo: Ver israelenses em seu próprio país vibrarem quando o Urso Judeu (Eli Roth), com um taco de baseball, reduz a massa encefálica de um nazista em simples matéria cadavérica.

Antes de chegar à parte do taco de baseball, me deixe contar como cheguei até lá.

Estava hospedado em um hotelzinho mixuruca em Eilat, cidade ao sul do país, junto ao Mar Vermelho. Já era noite e, apesar da cidade de 55 mil habitantes ser um balneário turístico, tudo já estava fechado. Sorte que não era sábado, dia de descanso dos judeus. Senão nem o cinema estaria aberto.

Eu precisava muito descansar porque no dia seguinte eu iria de ônibus para Petra, na Jordânia, distante quase duas horas dali. Mas estava sem sono e decidi ir ao cinema, que ficava do outro lado da rua, exatamente em frente ao hotel.

O letreiro, escrito em hebraico, inglês e árabe não deixava dúvidas de que ali funcionava um cinema. Dentre as opções de filmes (não me lembro quais), escolhi, claro, Bastardos Inglórios e tentei falar com a atendente, em inglês, que queria comprar o ingresso. Ela era uma negra, alta, com um corpão. Bem diferente dos outros judeus que cruzavam comigo pelo país. Depois de não entender nada do que eu disse em inglês, ela se virou para o outro atendente e disse, para meu espanto, em português, com sotaque carioca: “Acho que ele é espanhol, mas não entendo nada do que ele está dizendo em inglês”. Na hora eu respondi: “Agora sim estou entendendo vocês”.

Todos rimos, comprei meu ingresso e enquanto aguardava a sessão começar ficamos conversando. Ela, como disse, é carioca. Deve ter uns 35 anos, mora há dez em Israel e tem três filhos, fruto de um casamento com um judeu. Ele estava havia apenas dois meses na cidade, aparentava ter uns 25, veio de São Paulo auxiliado por um programa do governo israelense que incentiva filhos de judeus a se mudar para o país. Em São Paulo, ele namorava uma garota que mora na mesma rua que eu, na Zona Norte da cidade. Pensei em como esse mundo, realmente, é pequeno.

De volta ao filme, entrei na sala e me acomodei em uma poltrona bem próxima a um grupo de pessoas. Queria sentir a mesma coisa que eles.

Ah, tomei o cuidado de assistir a uma sessão legendada. Já que não falo absolutamente nada de hebraico. Imaginei, erroneamente, que neste caso entenderia boa parte do filme, com seu som original, em inglês. O que não sabia, era que o longa também tinha falas em francês e alemão, com legendas em hebraico. Portanto, não entendi muito bem o que os personagens falavam.

Mas não importou. Acabei entendendo a ideia geral do filme (depois o assisti novamente no Brasil). Foi até bom porque deu para prestar mais atenção nos detalhes. Mas a experiência, no entanto, é que foi inesquecível e, no fim das contas, era o que realmente importava.

Até hoje, no Brasil, (exceto quando fui a uma exibição promocional do filme Jonas Brothers 3D, feita para os fãs-clubes da banda) eu nunca tinha visto as pessoas se levantarem da poltrona para gritarem e vibrarem juntas com o filme.

A cada paulada que o Urso Judeu dava na cabeça de um nazista era um assovio de satisfação que ouvia. A cada ofensa desferida pelo tenente Aldo Raine (Brad Pitt) aos soldados inimigos eram palmas que se ouviam. Era possível sentir as pessoas se mexerem na cadeira a cada escalpo que um dos bastardos arrancava das cabeças dos soldados nazistas. E no fim apoteótico de Tarantino, após um banho de sangue, palmas e mais palmas para a projeção. Enfim, uma catarse coletiva. Detalhe: já disse lá em cima, mas vale repetir. Esta não era uma exibição especial para imprensa. Tratava-se de mais uma exibição normal, feita em uma pequena cidade, num horário nada popular.

Saí do cinema com a sensação de que tinha presenciado algo único. Era a redenção de um povo que via no cinema um filme sobre a Segunda Guerra que não os retratavam como pobres coitados, sofrendo em campos de concentração. E sim como soldados corajosos, cruéis e impiedosos com seus inimigos.

Em tempo: nesta viagem me lembrei também de outros dois personagens de Tarantino. Os mafiosos Vincent Veja (John Travolta) e Jules (Samuel L. Jackson), do filme Pulp Fiction. Em um impagável diálogo entre os dois, eles discutem sobre o nome do sanduíche Quarteirão com Queijo, que nos Estados Unidos tem o nome de Quarter Pounder.

O diálogo consistia em dizer basicamente que a diferença entre a Europa e a América estava em pequenos detalhes, como o fato de o Quarteirão ser chamado na França de Royale Cheese e vir acompanhado de maionese para a batata. A mudança de nome foi feita, segundo os personagens, porque os franceses não entendem nada do sistema métrico americano. Enquanto estava em Paris, entrei em um Mc Donald’s só para ter o prazer de pedir o tal Royale Cheese e internamente fazer uma homenagem a Tarantino.

De volta a Israel, eu até que tentei comprar um Quarteirão com Queijo, mas o sanduíche não existe no cardápio. A dieta dos judeus proíbe que eles comam carne junto com queijo. Ou seja, já era o cheeseburguer. Comi um Big Mac, mas sem queijo. Pedi para botarem queijo, mas a dieta kosher proíbe que esses dois alimentos fiquei próximos na mesma cozinha. (Felipe Branco Cruz)