Trilhas de filme

Estadão

09 de abril de 2010 | 08h00

Ora, é tudo verdade. Inclusive a lama, a chuva e os mosquitos. A 15ª edição do maior festival de documentários do país, o É Tudo Verdade, estreia para o público hoje (9), em São Paulo e no Rio. Mas a aventura dos cineastas que fizeram os 71 filmes selecionados – que serão todos exibidos em sessões grátis – começou bem antes. Em outros lugares.

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Por trás das câmeras, há quem atravessou selvas e oceanos. O Divirta-se documentou suas histórias. Você vai conhecer um chileno que teve tempo de se perder (e se reconhecer) entre japoneses, uma jornalista paulistana que reconheceu conterrâneos em Londres graças a uma marmita de arroz e feijão, uma americana e um ucraniano que se ‘internaram’ em um museu do Usbequistão e um carioca que teve uma aula prática de política no meio da selva. Eles e tantos outros protegeram os equipamentos das intempéries para que você pudesse ver os resultados confortavelmente, em uma sala de cinema.

Deserto Fértil | Rota da Seda, os passos de Marco Polo, as cúpulas azuis das mesquitas de Samarcanda. Tudo isso enfeitiçou o ucraniano Tchavdar Georgiev e a americana Amanda Pope ao longo do caminho. Mas seu destino era Nukus, uma cidade desértica do Usbequistão, onde fica a coleção de Igor Savitsky. São mais de 40 mil obras de artistas perseguidos pela KGB e de uma escola que fundia modernismo europeu com tradição islâmica.

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O deserto da arte proibida

A erudição dos curadores era tão fascinante que os diretores de O Deserto da Arte Proibida se internaram no museu, almoçando os ensopados que sua anfitriã preparava. Tchavdar nasceu na União Soviética. “Mas o Usbequistão era tão estrangeiro para mim quanto seria para um brasileiro”, garante. “ Foi alucinante.” Para a americana Amanda, a experiência também foi surpreendente. Ela se lembra, rindo, do momento em que precisou dirigir um camelo, para que o bicho ficasse bem em cena.

Cinema na Garupa | A jornalista Flávia Guerra, do Estado, foi a Londres fazer um mestrado sobre documentários. Na escola, ela encontrou a educação formal que esperava. Mas foi nas andanças pela metrópole que surgiu o curta-metragem Karl Max Way, codirigido por Maurício Osaki. Ela trombou com o tema. “No trânsito, reparei que os motoboys praguejavam em português. Nas pracinhas, cruzava com turmas comendo marmita de arroz e feijão.”

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 Karl Max Way

Depois, ela precisou contratar uma van. Por uma coincidência, o motorista era do Capão Redondo. Foi ele que lhe apresentou o notável Karl Max (escreve-se assim mesmo), o motoqueiro que conduz o filme. “Há um substrato de Terceiro Mundo em Londres que não se vê em Harry Potter”, diz Flávia, para quem não interessava ir à Inglaterra fazer um filme de glamour. “Aprende-se muito sobre o mundo em Londres”, diz. “E não há jeito melhor de sentir a cidade do que em uma moto.” 

Achados e perdidos | Durante oito anos, o chileno Cristián Leighton procurou pistas sobre o cinema misterioso de Naomi Kawase (Floresta dos Lamentos). Escreveu cartas e e-mails sem resposta, até que um projeto sobre o desenvolvimento industrial no Japão permitiu que ele atravessasse o oceano para estar em Nara. Na cidade, pôde conviver enfim com Naomi, a responsável pelos filmes “estranhos e atraentes” que o encantaram. O relato está no longa Kawase-san. “São diários de um homem que viaja, suas impressões e seus sentimentos. Perder-se pode ser uma fonte de energia.”

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Kawase-san

Selva Parlamentar | “Uma malinha ridícula.” Foi o que Felipe Lacerda, codiretor de Ônibus 174, teve tempo de preparar quando decidiu, em cinco dias, filmar Os Representantes na Amazônia. Por que a urgência? Os jornais só falavam do furacão Katrina. Nova Orleans parecia mais perto do que a Amazônia, que passava pela maior seca da sua história. E você foi registrá-la. Buscava uma imagem síntese da crise. Viajamos, eu e um fotógrafo, em aviões de distribuição de alimentos e embarcações, Pegamos carona no bote de um pescador (foto). Compramos redes e mosquiteiros e partimos sem saber para onde.

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Os Representantes

E o que encontraram? Uma comunidade com menos de cem casas. O primo do pescador nos hospedou. Por coincidência, no dia seguinte, havia o plebiscito sobre as armas. Observei um líder comunitário, que era vereador, e resolvi seguir seus passos. Os diálogos entre os parlamentares eram surreais. O filme mudou? Encontrei uma metonímia da política no país. O filme também tem ecologia. Mas olhar tudo de perto nos ajudou a entender como as coisas funcionam em larga escala na política.

Viagem interior | Um senhor de quase 80 anos decide filmar, em 2009, sentimentos e memórias sobre a esposa, morta em um acidente de carro em 1972. O filme Irène é uma viagem no tempo, nas não só isso. Alain Cavalier, o renomado ‘filmador’ francês – ele não se diz documentarista – homenageado no festival, também nos leva a uma viagem interior de significados múltiplos. Tudo narrado com simplicidade. Além de Irène, a retrospectiva estimula outras jornadas introspectivas com os curtas da série ‘Retratos’, sobre profissões femininas em extinção, e os longas Esta Secretária Eletrônica não Grava Recados, O Encontro e O Homem-Cinema. Veja para não esquecer.

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Irène