Sessão nostalgia

Estadão

09 de julho de 2010 | 12h00

shrek_500

A crise da meia idade não poupa ninguém – nem mesmo ogros. Depois de três filmes, nos quais gradativamente trocou sua liberdade por mulher, filhos e responsabilidades, Shrek chega a Shrek para Sempre com dificuldades para reconhecer a si mesmo no espelho. Para sorte do monstro (e de seus roteiristas preguiçosos), Frank Capra inventou a solução para esse tipo de problema mais de 60 anos atrás, com A Felicidade Não se Compra (1946). Graças a um acordo com o duende Rumpelstiltskin, o protagonista ganha 24 horas para reviver seus tempos de solteirão – e também para descobrir que o reino de Tão Tão Distante seria muito pior se ele jamais tivesse existido. Neste lastimável mundo novo, o Gato de Botas se tornou gordo e mimado; o Burro nunca se apaixonou pela dragoa; e Fiona, solitária, lidera um bando de ogros rebeldes.

Na versão legendada, o vilão Rumpelstiltskin não é dublado por uma ator famoso, e sim por um dos chefes de animação do estúdio DreamWorks, Walt Dohrn.

É adequado. Seu contrato mágico não tenta ‘libertar’ apenas Shrek, o personagem. Nestes nove anos desde o primeiro filme, a própria franquia também foi domesticada. Surgida como uma paródia às fábulas da Disney, há tempos ela perdeu essa função contestatória. Em parte, porque todas as animações que vieram depois de Shrek absorveram um pouco de sua ironia pop. E, em parte, porque a Pixar, concorrente da DreamWorks, estabeleceu um outro modelo de longa-metragem animado – sem se importar em seguir (ou parodiar) a desgastada fórmula da Disney.

E é um modelo difícil de se copiar. Assim como Toy Story 3, este também é o último filme de uma cinessérie querida. Shrek ganhou uma despedida certamente mais adulta, mas também melancólica, com poucos bons momentos. Na tela e fora dela, o ogro verde não amadureceu direito.

Tendências: