Realidade fantástica

Estadão

18 de junho de 2010 | 00h02

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Malik El Djebena, o protagonista de O Profeta, já tem cicatrizes no rosto e no corpo quando entra na prisão. A pele é marcada desde o começo, mas só com o avanço de sua saga é que ela se torna uma couraça. Sem-lugar por essência, o jovem vivido por Tahir Rahim cresceu em um reformatório; é árabe, mas come carne de porco; fala francês, mas é analfabeto. E convive de perto com a máfia da Córsega em um cárcere a que chegou ingênuo. Em sua transformação, El Djebena converte sua falta de lugar em uma independência espantosa. Arrasadora.

O longa vencedor do Prêmio do Júri no Festival de Cannes de 2009 não é composto apenas por sangue – embora haja muito, o tempo todo, e a violência quente em nada lembre ketchup. É que, para além das lâminas na boca que levam o coração do espectador ao estômago, há nichos de luz. São imagens de sonhos, assombrações e visões turvas. Esses espasmos fantásticos tornam a ‘realidade’ ainda mais impressionante. Discretos, mas de profunda beleza, fazem lembrar que o diretor Jacques Audiard é o mesmo que conduziu um filme de nome tão romântico quanto De Tanto Bater, Meu Coração Parou (2005). (Ilana Lichtenstein)

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