O vencedor

Estadão

14 de março de 2010 | 12h00

(Este é um dos posts da série de resenhas publicadas no Guia do Estadão sobre filmes que concorreram ao Oscar e estão em cartaz)

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Guerra ao terror | The Hurt Locker, EUA, 2008

Indicações | Melhor Filme; Melhor Diretor, para Kathryn Bigelow; Melhor Ator, para Jeremy Renner; Melhor Montagem; Melhor Trilha Sonora; Melhor Fotografia; Melhor Mixagem de Som; Melhor Edição de Som; Melhor Roteiro Original; Venceu os prêmios de Melhor Filme, Melhor Direção (sendo a primeira diretora mulher a ganhar o prêmio), Melhor Edição, Melhor Roteiro Original

Soldados bem humanos, num ponto bem preciso da Terra, conduzem a trama do filme que ameaça desbancar o multimilionário e interplanetário Avatar no próximo Oscar. A diretora, Kathryn Bigelow, é igualmente humana e sensível – muito mais, certamente, do que aqueles que deram o título brasileiro de Guerra ao Terror a The Hurt Locker, quando o lançaram primeiro em DVD. Não vale batizar esse belo filme, que mostra a ocupação no Iraque, com o exato argumento dado pelos americanos para sua presença no país. Porque, na tela, não há pretexto geopolítico que valha: “a guerra é uma droga”, avisa um letreiro do início, e o termo ‘droga’ toma rumos impensados – o vício pela adrenalina.

Começamos acompanhando o papo de alguns militares em campo de batalha. Parecem personagens típicos de Hollywood: há o negro espirituoso, o loirinho assustado, o novato metido a sabichão. A diferença é que eles formam um esquadrão responsável pelo desarmamento de bombas. E são eles que vemos, em geral com medo, cansados, contando os dias para o fim (ainda que o alistamento não fosse obrigatório).

Kathryn, experiente no gênero de ação, cria cenas estonteantes. Mas é nos pequenos intervalos entre a tensão que sua feminilidade se mostra – e justifica por que ela, que foi casada com o James Cameron de Avatar, merece ser a primeira mulher a ganhar o Oscar de direção.

A câmera filma as ondas de calor, as casas e os olhares do Oriente Médio. Em uma cena das mais bonitas, os soldados simplesmente têm sede. O que torna impossível detestá-los. Talvez esse desconcerto seja seu trunfo: é um filme de ação, mas não há sentido em torcer para alguém. (Ilana Lichtenstein)