O sabor da groselha em 'filmes C'

Estadão

21 de abril de 2010 | 15h42

Cinema conversou com alguns dos diretores que estão no festival Cinema de Bordas, que você viu neste post, e descobriu obras primas do cinema caseiro. Um dos diretores, o Felipe M. Guerra, até já apareceu no Fantástico, de tanto que seus filmes ficaram famosos. Outro diretor, Rodrigo Aragão, prepara efeitos especiais bastante realistas: já chegou a usar 700 litros de sangue artificial (leia-se: groselha, mel e corante alimentar) em uma produção, e fez algumas pessoas desmaiarem de pavor no teatro. Já o desafio de Igor Simões foi fazer a cidade de São Paulo se parecer com algo futurista. No ano de 2054, para ser mais exato. Em uma das cenas, tem até uma citação ao filme Stallone Cobra, com a antológica fala “Você é a doença. Eu sou a cura.” Confira um pouco do que você vai ver no festival (que começa hoje e termina domingo, 25).

Diretor | Felipe M. Guerra
Filme | Entrei em Pânico ao Saber o que Vocês Fizeram na sexta-feira 13 do Verão Passado

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O filme, lançado em 2001, é uma sátira aos filmes de terror do fim dos anos 90 e começo dos anos 2000, “especialmente às suas bobagens”, segundo o diretor Felipe M. Guerra. A ideia é parecida com a de Todo Mundo em Pânico, mas com humor “menos chulo”. Todos os atores são seus amigos e – preste atenção no sotaque – moram no interior do Rio Grande do Sul.

Como todo filme de terror, há mortes bem sangrentas. “Nesse filme eu ainda não tinha descoberto um sangue ‘ideal'”, conta Guerra. “Então a cada morte, tem uma cor diferente. Usamos tudo que lembrasse sangue: suco de groselha, catchup, tinta pra carimbo vermelha”, enumera. A receita ficou ideal mais tarde, quando misturaram coca cola ao suco de groselha (o que, possivelmente, tomou boa parte do orçamento de R$ 250 da produção).

As vísceras de uma das vítimas são de verdade, mas não são de humanos. Foram obtidas de um amigo que faz salame (a cena aparece no trailer).

Apesar da diversão durante as filmagens, Guerra leva seus filmes a sério. “Não é muito avacalhado, a gente dá a maior atenção para roteiro, edição etc. e tal.” Mas, sim, ele sabe das limitações técnicas. “É um trash meio intencional. A gente tem consciência do que faz.”

Guerra é jornalista. Há outros filmes em seu currículo – todos “de borda” -, como a comédia romântica Canibais e Solidão e a sequência de Entrei em Pânico…: A Hora da Volta da Vingança dos Jogos Mortais de Halloween. Influências? Tarantino, oras.

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Diretor | Igor Simões
Filme | Cyberdoom

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Foram gastos R$ 400 na produção, com equipamentos, gasolina e lanche (detalhe: para 15 pessoas. Em cinco meses de filmagem). Simões juntou os amigos da faculdade, bolaram um roteiro, mas não foi possível rodar o filme. “O roteiro ficou tão bom que se tornou inviável.” Após uma série de cortes, quem salvou o projeto foi um dos amigos, viciado em quadrinhos, que ‘trabalhou’ como continuísta. Os efeitos especiais foram feitos em Adobe Première.

“Primeiro motivador é o amor ao cinema”, diz Simões, que não tem pretensões comerciais. “A gente faz esse tipo de filme para a família, para os amigos.”

Cyberdoom é uma espécie de Mad Max ecológico. No ano de 2054, a cidade de São Paulo vive um grande problema de escassez de água e epidemias (que na verdade são criadas secretamente por indústrias farmacêuticas ligadas ao governo, a fim de venderem suas vacinas). Há influências de Stanley Kubrick, George Lucas e Matrix, além de toques de pornochanchada. “Por causa dos palavrões”.

A indumentária dos ciborgues é composta por óculos de sol, conduíte de instalações elétricas, roupas de motoqueiro e algumas outras sucatas. Um dos cenários (utilizado clandestinamente, já que “é um filme cyberpunk, né”) é um trem da CPTM abandonado perto da estação Presidente Altino, em Osasco. Além da fala de Sylvester Stallone em Stallone Cobra, há outra referência a filmes do estilo Rambo: “Vermes como você eu como no café da manhã.”

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Diretor | Rodrigo Aragão
Filme | Chupa Cabra

É um curta-metragem de 17 minutos. Custou R$ 300. O diretor é fã de filmes de terror dos anos 80, como A Coisa, Um Lobisomem Americano em Londres, A Hora do Arrepio e outros com fantasias feitas de espuma. Ele queria fazer algo neste estilo, mas com a cara brasileira, contando lendas regionais. E lá estava o Chupa Cabra, presente nos noticiários no fim da década passada e até hoje no imaginário de pequenas cidades interioranas.

A fantasia de Chupa Cabra é feita de silicone. No filme, foram usados dez litros de sangue artificial – groselha, chocolate, mel e corante alimentar.

O que Aragão faz, segundo ele próprio, é “Terror de Perocão”, referindo-se a uma região capixaba de pescadores (Aragão é do Espírito Santo). Ele fazia efeitos especiais em peças de teatro – sim, com bastante sangue também. “Em dois meses, fizemos 19 pessoas da plateia desmaiar por causa da peça”, lembra, com certo orgulho. Para fazer os filmes, os amigos do teatro ajudam. “É tudo mambembe, em regime de mutirão”, conta.

O filme Chupa Cabra está virando longa-metragem. O orçamento previsto é de R$ 100 mil – obtidos através da iniciativa privada. O processo já não é mais tão mambembe. Mas o diretor garante: seu cinema ainda é de bordas.