O mistério da distribuição – Parte V: quem estraga os títulos

Estadão

01 de março de 2010 | 18h08

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(Para ler os posts anteriores desta série, que explica em detalhes o processo de distribuição dos filmes, clique aqui.) 

Se você quiser transformar a vida de um atendente de videolocadora em um inferno, diga a ele que está procurando um filme, mas não se lembra de qual. Só sabe que talvez ele tenha as palavras ‘jogo’, ‘paixão’, ‘intriga’ ou ‘da pesada’ no título. O coitado vai achar uma lista imensa no sistema… 

Não tem jeito: as distribuidoras alteram os títulos originais sem hesitar. Em parte, para se adequar ao público brasileiro. Por aqui, não funcionam títulos com o nome do personagem, por exemplo. (Forrest Gump, uma das raras exceções, ganhou o subtítulo O Contador de Histórias). E títulos muito complexos ou metafóricos, que exigem preciosos segundos de interpretação, também são dispensados, em troca de expressões um pouco mais vagas, mas que não afugentem ninguém. E dá-lhe um “Fulano do barulho” ou “Não-sei-o-quê quase perfeito”.  

Mas não se engane, tudo isso acontece com a aprovação da produtora original, dona dos direitos da película. Só que, quanto mais forte é a marca, mais difícil é mudar o nome: Harry Potter, O Senhor dos Anéis, Batman e A Saga Crepúsculo, com suas traduções literais, estão aí para provar isso.  


 
Outro elemento que pode confundir os fãs são os trailers. “Eles têm uma função de venda clara e um objetivo que não precisa nem ser dito: esconder os defeitos do filme, para evitar ao máximo a rejeição do público, e apresentar suas virtudes”, define o cineasta Paulo Sérgio (diretor do portal Filme B, que se ocupa do mercado cinematográfico).  

Anos e anos de pesquisa de marketing ajudaram a refiná-los de tal maneira que hoje todos parecem um clichê. Por exemplo: o público (no Brasil e nos EUA) costuma ser reticente com filmes de época. Logo, a narração evita determinar o período da trama, apelando para chavões vagos como: “Numa época… em que o amor era proibido… e a tirania estava no poder…”. Pelo mesmo motivo, o trailer costuma acabar com as surpresas do filme: seu poder de convencimento é maior se ele já incluir as melhores piadas da comédia ou os melhores sustos de um suspense. (É o caso do comercial de Entre Irmãos, acima, que conta praticamente o filme todo em 2 minutos e meio).  

Desta vez, porém, a distribuidora não tem culpa de nada. Ela apenas recebe os trailers já prontos, direto do produtor da película. Cabe a ela apenas fazer legendas – escolher entre as cores branca e amarela para ver qual cai melhor na tela – e produzir os cartazes.  

Amanhã, no último post da série, o Cinema fala do estágio final da distribuição: o mercado de DVDs e BluRay. (Renata Reps e Marcel Nadale)