No tempo dele

Rafael Barion

02 de julho de 2010 | 12h23

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Muita gente já invejou a infância do pequeno Nicolau. Os pais do garoto foram os primeiros. Quando o escritor René Goscinny e o ilustrador Jean-Jacques Sempé criaram o personagem, nos anos 50, misturaram o que lembravam de sua época de escola a tudo o que gostariam que ela tivesse sido. As histórias desta ‘infância dos sonhos’ viraram o livro ilustrado de contos Le Petit Nicolas, que foi publicado em 1960, na França – e se transformaria, nos anos seguintes, em uma série com outros quatro volumes.

É o primeiro, porém, que serve de base para O Pequeno Nicolau. Na adaptação de Laurent Tirard, o personagem é um garoto que não sabe o que quer ser quando crescer. Enquanto reflete sobre a dúvida, motivada pelo tema de uma redação, vai nos contando sobre seus colegas, seus pais, sua escola.

Tirard se manteve, de certa forma, fiel ao universo dos livros. Traduziu, na direção de arte e na escolha dos atores (todos ótimos), a França romântica e idealizada e os personagens carismáticos de Goscinny e Sempé. E se esforçou para costurar os contos em uma única história – e manter o humor dos relatos.

No papel, as aventuras de Nicolau são cativantes, em parte, por serem narradas por ele mesmo. Para reproduzir o discurso do garoto, Goscinny (que também escreveu as histórias do gaulês Asterix) abusava das repetições e construções de frase típicas das crianças. E mantinha um ponto de vista ingênuo. Para Nicolau, a vida é sempre uma confusão, mas nunca é um drama – pois seu jeito de ver o mundo é simples. Funciona com as crianças (por empatia) e com os adultos (por desmascarar a falta de lógica de muito do que fazemos).

Na tela, não é bem assim. O discurso do garoto perdeu as nuances do texto escrito e muito dos episódios viraram gags que nem sempre funcionam. Nos momentos em que Tirard se afasta dos contos e cria situações mais livres, porém, o filme se aproxima do espírito original. É por causa deles que nenhum adulto que já invejou Nicolau deve deixar de vê-lo. Ou deixar de levar seus filhos para invejá-lo também.