Morto-vivo

Estadão

21 de maio de 2010 | 16h36

paulo jose_pronta
Paulo José não quis dublês nem bonecos para ‘dar vida’ ao defunto de Jorge Amado

O protagonista está morto e muitas cenas acontecem no pedaço mais escuro da cidade. Ainda assim, Quincas Berro d’Água é um filme cheio de vida.

Na Bahia dos anos 50 descrita na novela de Jorge Amado, os burocratas são insossos ou infames, mas os cachaceiros têm a audácia e o vigor da liberdade. Joaquim Soares da Cunha havia nascido entre os primeiros. Abandonou a família para ser Quincas, “o rei dos vagabundos da Bahia”.

Mas Quincas morre no começo da trama. Por que, então, o diretor Sérgio Machado (de Cidade Baixa) recrutou o veterano Paulo José para um papel de defunto? Não há, aí, desperdício algum de talento. É que nessa história insólita, os amigos ébrios e dionisíacos levam o ‘paizinho’ embora do próprio velório para reencontrar bares, amores e a morte certa. E Paulo é essencial ao longa. Ele não quis dublês nem para subir na estátua de Castro Alves. E preferiu dar ao rosto do morto seu próprio sorriso, em vez de usar bonecos. “Os bonecos foram os atores mais bem pagos do filme: custaram uma fortuna e não tiveram de trabalhar”, brinca o diretor, que teve também Marieta Severo, Mariana Ximenes, Vladimir Brichta e Irandhir Santos no elenco.

Foi uma boa surpresa. Assim como ver o diretor, nascido em Salvador e responsável pelo roteiro, passear livre pelo universo de Amado, à vontade para enroscar o caso com várias cenas de ação. Foi ele quem criou a falsa espanhola Manuela (Marieta), deu uma nova dimensão à filha ressentida de Quincas (Mariana), levou-o ao candomblé e a destilar sabedoria em uma narração que pode fazer rir e chorar.

Tudo casado com a bela fotografia de Toca Seabra, que evita saturações e exotismos. O resultado é, ao mesmo tempo, carinhoso, triste e engraçado.

Pulsante, enfim.

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