Mentiras sinceras

Estadão

16 de abril de 2010 | 13h17

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Zona Verde não é a quarta aventura do agente Jason Bourne, mas faz sentido se você confundir: o filme tem o mesmo ator (Matt Damon), o mesmo diretor (Paul Greengrass) e as mesmas câmeras irrequietas e cortes alucinados de A Identidade Bourne e A Supremacia Bourne. Desta vez, porém, se a ficção de Greengrass parece realidade, não é só por causa do seu modo polêmico de encenar – é também porque ela tenta reconstruir uma situação (algo) real.

O filme se passa semanas após a invasão americana no Iraque, em 2003. Roy Miller, o personagem de Damon, é um subtenente do exército dos EUA que está encarregado de procurar as armas de destruição em massa de Saddam Hussein que justificaram a ação militar. Mas toda informação que ele recebe do serviço de inteligência aponta para locais onde não há armamento nenhum.

Em pouco tempo, Miller se dá conta de que sua missão é, de fato, fingir que está buscando armas – e passa a investigar, por conta própria, por que ninguém parece se importar com isso.

Para escrever sua história, Greengrass e o roteirista Brian Helgeland partiram do livro que Rajiv Chandrasekaran, ex-chefe da sucursal do Washington Post em Bagdá, escreveu sobre a ‘zona verde’ – a área fortificada da cidade que passou a servir de base às forças estrangeiras. ‘A Vida Imperial na Cidade Esmeralda’ conta como esta região se tornou uma espécie de ‘bolha’ alheia aos problemas reais do resto do país.

O diretor reconstruiu este universo, mas fez, a partir dele, uma ficção. Como em ‘Domingo Sangrento’ e ‘Voo United 93’, Greengrass se apropriou de um fato real para usá-lo como material para um thriller. No filme sobre o avião sequestrado em 11/9, havia algo de imoral em transformar um drama real e recente em entretenimento. ‘Zona Verde’ pode ser diferente, mas a verdade, novamente, não é a questão. O que o personagem de Damon descobre pode não estar longe dos fatos, mas o longa não faz política – faz você pular (de excitação ou de irritação) na cadeira do cinema. Como os filmes de Bourne. (Rafael Barion)