Infeliz coincidência

Estadão

19 de maio de 2010 | 16h47

Sabe aquela história do cara que saiu para fumar e nunca mais voltou? Pois é. Com o cineasta franco-polonês Roman Polanski foi mais ou menos isso. Exceto pelo fato de que ele saiu de sua casa em Paris para receber um prêmio no Festival de Cinema de Zurique, na Suíça, em setembro de 2009, e, desde então, não voltou à terra natal. O motivo? O cumprimento de um mandado de prisão que completava 31 anos – Polanski é acusado do estuprar uma garota americana de 13 anos, crime que chegou a assumir em 1977 quando se refugiou na Europa.

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Pierce Brosnan e Ewan McGregor em cena de O Escritor Fantasma

As polêmicas não deixam de acompanhar a vida do diretor de O Escritor Fantasma, thriller que chega às salas do Brasil no próximo dia 28. No dia 14 de maio, a atriz Charlotte Lewis convocou a imprensa de Los Angeles para acusar Polanski de ter abusado sexualmente dela em 1982, quando tinha apenas 16 anos, dessa vez em Paris. Lewis fez uma ponta no filme Os Piratas, dirigido por ele em 1986. Seu advogado na França, George Kejman, ameaçou processar a atriz por calúnia caso ela formalize a acusação.

Enquanto isso, Polanski aguarda a decisão judicial sobre seu futuro – se volta para a França, se é extraditado para os Estados Unidos, se fica para sempre na Suíça – trancafiado em seu chalé. A revista Screen, do Festival de Cannes, publicou uma matéria na última quarta-feira (12) dizendo que a cineasta Marina Zenovich pretende fazer uma continuação do polêmico documentário Roman Polanski: Wanted and desired, lançado em 2008. O filme seria um curta, mas devido à história que parece não ter fim, a expectativa é que vire outro longa. A realizadora aguarda um desfecho para começar a narrar o caso do ponto em que parou.

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O Escritor Fantasma recebeu o Urso de Prata de melhor direção durante o Festival de Berlim, em fevereiro deste ano. O filme, baseado no best-seller The Ghost, de Robert Harris, conta a história de um escritor (Ewan McGregor) que acaba aceitando o encargo de escrever as memórias políticas de um ex-primeiro ministro britânico, Adam Lang (Pierce Brosnan), muito a contragosto. Durante o processo de entrevistas para elaboração da autobiografia, Lang é acusado de favorecer práticas terroristas por um tribunal internacional.

A mulher do senador (Olivia Williams) o aconselha a voltar para a Inglaterra e buscar abrigo, mas seu advogado desaprova a sugestão, dizendo-lhe que ele deve ter cuidado para não ir a qualquer país que tenha tratado de extradição. Vale lembrar que as filmagens do filme terminaram em maio de 2009, e o diretor só foi preso em setembro em uma visita à Suíça. É no mínimo estranho que ele possa prever algo assim. Será que incluiu a piada macabra depois de estar confinado? Não se sabe. Mas é coincidência demais.

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Foto do casamento de Sharon Tate e Roman Polanski em 1968

Não foi, no entanto, algo inédito nos idos dos sincronismos sinistros da vida de Polanski. Em 1969, um ano depois de lançar o histórico O Bebê de Rosemary, sua mulher, Sharon Tate, foi assassinada brutalmente na própria casa, em Los Angeles, por quatro jovens – a Família Manson. Sharon estava grávida de oito meses do primeiro filho do casal. No dia seguinte ao crime, o mesmo grupo mataria o casal de empresários Leno e Rosemary LaBianca. Infelicidades, sem dúvida. Mas, no caso de Polanski, é muito difícil não acreditar que sua vida tem o bizarro hábito de acompanhar a sua arte.

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