Filme-origami

Estadão

06 de agosto de 2010 | 20h50

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O que Christopher Nolan trouxe de melhor às suas duas versões de Batman foi uma certa fisicalidade. Ele enraizou o personagem numa realidade concreta. Este, contudo, era o mesmo Nolan que tinha brincado com as percepções da mente (e rejeitado a narrativa linear como uma “tirania”) em Amnésia, Insônia e O Grande Truque. Assim sendo, A Origem talvez seja o seu mais autoral e bem-sucedido filme até hoje: um híbrido muito, muito fértil.

Leonardo DiCaprio interpreta Dom Cobb, um especialista em um ramo único na espionagem industrial. Ele é capaz de acessar o sonho de suas vítimas e, assim, extrair segredos de suas mentes. Mas um cliente misterioso (Ken Watanabe, de O Último Samurai) lhe propõe um desafio: em vez de retirar uma ideia, Cobb terá de implantar outra. Para isso, ele recruta a ‘arquiteta onírica’ Ariadne, vivida por Ellen Page (Juno) com pouco de seu carisma habitual – a personagem é um mero artifício do roteiro para explicar, ao público, a lógica do mundo dos sonhos.

Na (ir)realidade bolada por Nolan, a percepção do tempo é naturalmente distorcida. E a noção de espaço também pode ser subvertida, como Ariadne percebe, com certo entusiasmo infantil, durante um treinamento em uma representação subconsciente de Paris. É o primeiro dos muitos momentos em que se concretiza, em película, o virtuosismo do diretor. São os efeitos especiais mais impressionantes e eficientes do cinema desde Matrix (1999).

Mas Nolan também é ousado como roteirista. Enquanto Ariadne dobra a realidade sobre si mesma, ele vai dobrando as camadas da trama – para concluir sua missão, Cobb terá de espalhar sua equipe em sucessivos sonhos dentro de sonhos. Em meio à tensão que se multiplica, nos damos conta de que nossa experiência também é duplicada. Ao passear pelo cenário mental da vítima de Cobb, também estamos, na verdade, tendo acesso privilegiado à mente de um dos mais interessantes cineastas da atualidade. O sonho de Nolan é o sonho de qualquer cinéfilo.

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