Fé e sangue

Rafael Barion

02 de abril de 2010 | 10h38

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Os desejos da carne e as obrigações da alma duelam violentamente em duas estreias da semana. Em Pecado da Carne, primeiro filme do israelense Haim Tabakman, o conflito é contido na superfície, mas cruel em suas consequências. Suas vítimas são Aaron, o açougueiro (casado e pai de quatro filhos) de um bairro de judeus ultraortodoxos de Jerusalém, e Ezri, o rapaz a quem ele decide dar emprego.
Aos poucos, os dois passam a se sentir atraídos um pelo outro – na mesma medida em que a comunidade começa a rejeitá-los. Não é novidade para Ezri, que já passou por isso em outro lugar, mas é uma questão para Aaron, cujo modo de vida e integridade moral são, dentro das regras daquela sociedade, exemplares. Poderia virar um melodrama, mas Tabakman vai por outro caminho. Em vez de mergulhar nos sentimentos dos personagens, ele preferiu uma abordagem distanciada, em que subentendidos, gestos e a caracterização da comunidade falam mais do que os diálogos.
Não é o tipo de encenação que se pode esperar do coreano Park Chan-wook, do ultraviolento Old Boy. Sede de Sangue segue o caminho oposto ao de Tabakman – é excessivo, inconsequente e escatológico. Seu protagonista é um padre que serve de cobaia em uma experiência médica que dá errado – e vira um vampiro. Não é fácil para ele sobreviver sem matar ninguém, mas a garota por quem se apaixona não se importa muito com a questão. Sádico e virtuoso, Chan-wook filma a carnificina que se passa na tela como quem está se divertindo (ou escrevendo uma HQ), sem se preocupar muito em chegar a algum lugar. Há grandes cenas entre seus 132 minutos, mas é preciso um olhar despretensioso – e um estômago vazio – para apreciá-lo. (Rafael Barion)

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