Eu, na poltrona – O Segredo dos Seus Olhos

Estadão

05 de abril de 2010 | 17h50

Assistir a O Segredo dos Seus Olhos, de Juan José Campanella (O Filho da Noiva, 2001, e O Mesmo Amor, a Mesma Chuva, 2000) é uma experiência perturbadora. A obra que ganhou o Oscar de Filme Extrangeiro deixa o estômago embrulhado, traz lágrimas aos olhos e faz refletir sobre o quanto vale a pena revisitar o passado. A aposta do personagem Benjamín Espósito (Ricardo Darín) pode resolver uma vida inteira, como também desestabilizar aquele que não está preparado para o que pode vir.

o segredo de tus ojos_pronta

O filme fala de um ex-funcionário público aposentado que resolve escrever um livro sobre o caso criminal que mais marcou sua carreira de perito: o estupro e assassinato de uma moça por um amigo de infância dela. A interpretação comovente dos atores ajuda a traçar um cenário de ruptura brusca a partir desse acontecimento, de uma memória que nunca passou para este policial e se estende durante toda uma vida de situações mal-resolvidas. Até o fim, quando ele descobre o que de fato aconteceu e, assim, consegue solucionar os entraves de seu próprio caminho.

Ou seja: trata-se de uma história alheia a ele e que determina completamente a sua própria história. Dá aperto no peito ver o desenrolar da narrativa. O quanto uma pessoa pode ser sádica para confortar o seu próprio sofrimento. O significado relativo e particular da palavra justiça. O “verdadeiro amor”, aquele que o protagonista nunca tinha visto igual, mas que na verdade, ele tinha escondido de si mesmo. O vício disfarçado de paixão na bebida e no estádio de futebol.

Por tudo isso, antes de ir ao cinema para ver este imperdível romance policial, prepare-se para ter reveladas emoções muito íntimas. Isto não significa que você precisa se identificar de cara com os personagens para sentir a barriga queimar. De repente, você nem vai perceber mesmo onde está a identificação. Mas se de alguma forma ela aparecer, você vai viver um filme como há muito tempo não vivia. E chorar. E se emocionar. E sair da sala com o peso de participante, e não mero espectador, de uma história de verdade.