Dois gumes

Estadão

13 de março de 2010 | 08h00

Este post faz parte da série de resenhas publicadas no Guia do Estadão sobre filmes que concorreram ao Oscar e estão em cartaz.

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Bastardos Inglórios | Inglorious Bastards, EUA/Alemanha, 2009

Indicações | Melhor Filme; Melhor Diretor, para Quentin Tarantino;  Melhor Montagem; Melhor Fotografia; Melhor Mixagem de Som; Melhor Edição de Som; Melhor Roteiro Original; Melhor Ator Coadjuvante, para Christophe Waltz, que ganhou o prêmio.

Bastardos Inglórios fala de um grupo especial de soldados judeus que parte para a França, durante a 2ª Guerra, com o objetivo de escalpelar sem piedade o maior número possível de oficiais nazistas. Se isto o faz desconfiar de que se trata de um filme cruel, escandaloso e ofensivo, pode ter certeza: trata-se de um filme cruel, escandaloso e ofensivo. Mas trata-se também de um filme de Quentin Tarantino, o diretor de Kill Bill e Cães de Aluguel, para quem violência e diversão nunca andam separadas: escandalizar-se e divertir-se são, neste caso, dois momentos (inevitáveis) de um mesmo processo.

O diretor desenvolve a história em duas frentes. Há os carniceiros liderados pelo tenente Aldo Raine (Brad Pitt), que vão matando nazistas a pauladas, facadas e metralhadas, até que começam a armar um plano para acabar com a cúpula de Hitler de uma só vez. E há a jovem judia Shosanna (Mélanie Laurent), que teve a família assassinada, passou a administrar um cinema parisiense e também trama a sua vingança contra os alemães.

As duas histórias têm o mesmo vilão, o cultivadíssimo (e divertidíssimo) coronel Hans Landa – o ‘caçador de judeus’ que deu a Christoph Waltz o prêmio de ator no último Festival de Cannes. Ao contrário do que a escolha do tema indica, porém, Tarantino não está interessando em questões ideológicas – ou históricas. Espécie de Kill Bill feito com material inflamável, o filme é um exercício de (e sobre) cinema – onde, aliás, a história acaba. Como de costume, o que ele faz é usar (com sarcasmo) o que sabe do assunto para surpreendê-lo, irritá-lo, torturá-lo, manipulá-lo e, se você se submeter ao jogo, diverti-lo. Tudo o que se pode esperar de um grande sádico. (Rafael Barion)