Alice Potter

Estadão

23 de abril de 2010 | 12h50

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Há mais J. K. Rowling do que Lewis Carroll na versão de Tim Burton de Alice no País das Maravilhas que estreia hoje (23). Há também mais J. K. Rowling do que Tim Burton no longa que Burton fez a partir dos livros de Carroll.

Ser fiel à história de Alice no País das Maravilhas e Alice Através do Espelho não era mesmo uma preocupação do diretor. Para Burton, que não gosta da estrutura fragmentada dos livros, o importante era que o filme traduzisse o ‘espírito’ das obras. Assim, preferiu inventar uma nova história, que retém a premissa básica e certos personagens e episódios narrados pelo escritor inglês, mas segue por outros caminhos.

No filme, Alice (Mia Wasikowska) é uma garota de 19 anos (e não uma criança) que está sendo forçada a se casar com um rapaz que não lhe interessa. No momento em que ela deve dar a resposta ao seu pretendente, porém, um coelho com um relógio aparece. Ela decide segui-lo, cai no buraco de uma árvore e vai parar no ‘mundo subterrâneo’.

Como nos livros de Carroll, neste mundo é possível conversar com animais e crescer ou encolher comendo um doce. Mas, ao contrário do que acontece na literatura, tudo ali segue uma lógica muito clara. Há uma rainha má (Helena Bonham Carter), que detém o poder, e uma rainha boa (Anne Hathaway), que merece governar. E o papel de Alice é fazer justiça aos bons – o que exige vencer um combate contra um exército de inimigos e um monstro poderoso.

Apesar de os efeitos em 3D, em uma sala comum, pouco acrescentarem ao filme (é preciso ver o resultado na sala Imax), Burton criou um universo visual elaborado e interessante. Mas a fidelidade ao ‘espírito’ dos livros, em sua concepção, parece se resumir a isso. A essência mesmo das obras de Carroll (seus jogos de lógica e linguagem) ficou de fora.

O resultado é um filme que os fãs da série Harry Potter devem adorar e com o qual os fãs de Peixe Grande, A Noiva Cadáver e Edward Mãos de Tesoura podem simpatizar. Mas que dificilmente vai deixar satisfeito quem gosta muito dos livros de Carroll. (Rafael Barion)