A poesia de Miyazaki

Estadão

30 de julho de 2010 | 18h14

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Enquanto Toy Story 3 fala de um universo mágico que ganha vida à nossa revelia, o mestre animador japonês Hayao Miyazaki prefere se maravilhar com os momentos em que esses dois mundos se tocam. Foi assim em A Princesa Mononoke (1997) e A Viagem de Chihiro (2001).

Mas ele nunca tinha criado uma metáfora tão escancarada quanto a relação central de Ponyo – Uma Amizade que Veio do Mar. A personagem-título é um peixe que decide se tornar humana para poder ficar com o garoto Sosuke. Enfurecido, o pai dela deflagra uma enorme inundação, que reconfigura a vida no vilarejo costeiro onde o menino mora com a mãe.

É como o Nilo transbordando e fecundando as margens: o que germina são os momentos mais sutis da poesia de Miyazaki. Um peixe pré-histórico nadando tranquilo numa rua de lajotas, agora coberta com poucos dedos d’água. O sereno plano de um bebê bocejando. Ou Sosuke e Ponyo em uma aventura em um barco à vela – mas não a vela que você imagina. Talvez não seja uma sensibilidade tão abrangente quanto a de Toy Story, mas vale testar essas águas com a ponta do pé. Quem gostar da temperatura vai se esbaldar.

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