Jota Muniz pede a ressurreição dos velhos carnavais

Estadão

27 de junho de 2012 | 17h49

“ Os Clarins Estão Relembrando os Nossos Velhos Carnavais!!!

 Arlequins sensuais amam Colombinas de Pompons grenás!!!

Passam nas visões de Meus Sonhos  pierrôs tão tristonhos a tocar bandolins!!!

 Implorando em vão a ressurreição dos  velhos Carnavais!!!” (…)

                                                                            Lamartine Babo

                                                                Rio de Janeiro 10/1/1904 – 16/6/1963

Esta homenagem aos antigos carnavais, de autoria do legendário Lamartine Babo, serve como abertura, ou como se dizia no jornalismo de outrora, nariz de cera para a abertura de um verdadeiro depoimento de como era o Reinado de Momo da cidade de Santos, no litoral paulista, a partir do final  dos anos 1930.

O pesquisador e historiador carnavalesco Jota Muniz Junior, que gosta de ser identificado como um “sambista da antiga”,  disse ao Blog do Candinho que desde 1939, quando era criança,  ia  acompanhar o carnaval santista  na Praça Mauá, saindo da Rua General  Câmara, onde seu pai  tinha uma sapataria. Desta forma, Muniz acompanhava de perto a Folia de Momo santista, principalmente os blocos de sujos, onde passou a fazer parte da batucada em 1947/48.

Blocos de Sujos

Segundo  o historiador eram blocos de sujos porque neles se misturavam homens e mulheres – fantasiados ou não – , pessoas que não tinham dinheiro para pagar o ingresso nos clubes que promoviam bailes carnavalescos, como o Santos F.C. e o Atlético Santista, e que ali se reuniam sem qualquer preconceito:  negros, brancos, prostitutas, malandros, mulher de candomblé, rapazes, moças de família, todos se reuniam e saíam fazendo batucada pelas ruas  num vai quem quer e como puder. Saiam dez, vinte foliões batucando e davam uma volta pela cidade. E quando voltavam,  já havia centenas de  foliões que ficavam circulando junto com outros  blocos de sujos.

Mesmo assim, comentou Jota Muniz Junior, os clubes ficavam superlotados, porque muita gente gostava da rua e do salão. Clubes como Regatas Santista, Santos F.C., Jabaquara A.C., Clube Regatas Vasco da Gama, Saldanha da Gama, Portuários e Internacional de Regatas faziam a alegria no antigo carnaval de Santos.

Ranchos escolas

Conta Muniz  que  tudo se iniciou em 1935,  com os ranchos escolas das Tias Euclides Lidionetas que faleceram já em idade avançada e eram de maioria negra. Existiam  também nesta época, disse o entrevistado, os Ranchos  Arrasta Sandálias e o Novo Horizonte.

Escolas de samba

Segundo Jota Muniz Junior, as escolas de samba começaram a surgir em Santos, a partir de 1939, ano que marcou o centenário da emancipação da Vila de Santos. A primeira foi a escola Não é o Que Dizem, depois veio a dos Pinguins da Vila Mathias em 1940.  No ano seguinte, foi fundada a Escola número um no Canal 3,  a Aí Vem a Favela, e depois a Aí Vem a Favela do Campo Grande, após isso veio a X-9 da Bacia do Macuco que surgiu originária do conjunto Os Mensageiros do Samba, em 1944. Posteriormente, surgiram as agremiações Vitória, Escola de Samba  Tempestade de Ritmo, até chegar na Escola de Samba Brasil, em 1949.

Subindo a serra

A escola de samba  X-9 de Santos começou a participar ativamente do carnaval da capital do Estado de São Paulo a partir de 1948, quando naquele ano ganhou a Taça Papai Noel do antigo Jornal O Dia e dos extintos  Diários Associados.  Em 1949, recebeu  uma Taça de 1,20 metros  de altura. O concurso  oficial das escolas de samba do Quarto Centenário da fundação de São Paulo, em 1954, foi vencido pela Escola  Brasil de Santos e a X-9 Santista no mesmo ano venceu o concurso carnavalesco  organizado pela  Rádio Record, que foi televisionado na época na capital paulista com retransmissão para a Baixada Santista.

Carnaval oficial

Em meados de 1950, segundo Jota Muniz, o prefeito Antonio Feliciano oficializou o carnaval de Santos que, a partir de então, passou a ser considerado um dos maiores carnavais do Brasil porque tinha um leque de opções: Batalhas de Confetes que aconteciam cada semana ou duas vezes por semana em bairros diferentes – já a partir de janeiro.  Tinha o desfile Banho da Dona Dorotéia, Desfile da Faixa de Areia, Desfiles de Cordões Carnavalescos, Choros, Blocos, Ranchos, Tribos Carnavalescas, Escolas de Samba e Salões de Bailes que ficavam abarrotados de gente.

Universo do Carnaval

Para Muniz, o carnaval era um universo e o samba era apenas um mundo que participava daquele universo. O universo carnavalesco acabou, para ele ocCarnaval na expressão e definição original não existe mais, agora o que existe é um pequeno desfile de escolas de samba. Hoje, inclusive, se vê banda desfilando que não é banda, pois desfila com bateria de escola de samba. A verdadeira Banda desfila com instrumentos de sopro e percussão, ensina o pesquisador e historiador Jota Muniz Junior.

Início da decadência

A partir dos anos 1960, diz Muniz que aconteceu a decadência das músicas carnavalescas, quando cantores como Francisco Alves, Gilberto Alves, Silvio Caldas, Marlene, Dalva de Oliveira e Emilinha Borba procuravam ganhar os concursos de carnaval no Rio de Janeiro para ficar no apogeu. Até Cauby Peixoto gravou no carnaval um samba da Mangueira.

Indo mais fundo em seu depoimento ao Blog do Candinho, comentou Jota Muniz Junior que Francisco Alves – O Rei da Voz  – que durante o ano cantava ópera e música italiana,  no carnaval vestia camisa listrada e gravava sambas, marchinhas e até musicas da Mangueira. O carnaval envolvia todos os grandes artistas do eixo Rio-São Paulo gravando músicas da época.  Não existia um só programa radiofônico, as emissoras de  rádio tocavam o dia inteiro músicas carnavalescas.

Descaracterizando o samba de raiz

As crianças, nas proximidades do carnaval, já iam se ambientando a usar as fantasias que iriam brincar na grande festa popular. Com a decadência das músicas de carnaval e com a invasão das canções estrangeiras, a mentalidade dos brasileiros foi se deixando levar por isto. Bastante contrariado, Jota Muniz Junior relata que hoje, quem chega na escola de samba, ouve funk.  “Você vai à Portela,  ao Império Serrano e  ouve até o presidente da Mangueira dizer que a cultura lá do morro não é mais o samba, então para mim  tudo se acabou”, diz.

Só escolas de samba

Do carnaval antigo, segundo Muniz, só restaram as escolas de samba que eram perseguidas pela polícia, que dizia com frequência: “Bota esta negrada para desfilar na segunda-feira”. “Quando o sambista  andava a pé pra cima e pra baixo e ninguém o reconhecia, com a decadência dos blocos, ranchos, cordões tudo se acabou e aí as escolas de samba tomaram conta dos desfiles e conheceram o apogeu dos dias de hoje pois estão sozinhas no cenário carnavalesco”, desabafa Jota Muniz Junior.

Ele conta, ainda, que antes de 1954, as escolas santistas desfilavam sem verba. Para arrecadar dinheiro, saíam com as taças e as cabrochas pedindo ajuda para organizar os desfiles. Participavam em batalhas de confetes com esta finalidade, arrecadando verba para comprar fantasias, e os sambistas eram artesões populares, trabalhavam na alegoria, faziam os instrumentos pregados, não podiam comprar. Era de uma pobreza de origem como naquela época  foi em Santos, São Paulo e Rio de Janeiro.

Destaques e puxadores de samba

A partir dos anos 1960 é que as escolas passaram a ter destaques em carro alegóricos. Antes, eles desfilavam a pé, assim como os puxadores de samba,  exemplo maior disto foi  o imortal Jamelão que preferia ser chamado de intérprete  e que  puxava o samba da Mangueira sem microfone. Puxador de samba  naquele tempo tinha que ter gogó para que, a duas quadras adiante, pudesse ser ouvido pelos componentes e pelo público. As pastoras faziam a primeira parte e o puxador tinha de, sozinho, cantar a segunda parte do samba.

Fora da festa

Com relação ao samba atual de Santos, Jota Muniz prefere não arriscar nada, pois se diz afastado dos ensaios e desfiles das escolas de samba que ainda lutam com dificuldade para manter a tradição carnavalesca da cidade. Finalizando, Jota Muniz Junior diz não mais acreditar na recuperação do carnaval santista,  pois a maior parte dos antigos sambistas e carnavalescos  já partiram deste mundo e aqueles que ainda permanecem em vida são até criticados pelos sambistas  que na atualidade não querem sequer pesquisar em busca de entender a finalidade cultural da maior festa popular brasileira.

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