‘Vaga Carne’ e o fim da justiça na arte

‘Vaga Carne’ e o fim da justiça na arte

Leandro Nunes

23 Janeiro 2017 | 18h37

Esqueça as amarras que motivam antes expandissem o ato criador de um artista. Esqueça as amarras que estimulam um espectador a fruir uma manifestação do sensível. Queira deixar crenças estéticas, políticas, formais do lado de fora, antes de entrar no solo de Grace Passô. Também ajuda esquecer o que significa teatro, o que significa solo, monólogo, esqueça o que se fala por aí sobre arte contemporânea.

Já tem algumas semanas que o espetáculo Vaga Carne está em cartaz no Sesc Pompeia, tem mais detalhes sobre a peça aqui e aqui. A montagem reúne uma habilidade rara dos artistas brasileiros da cena: a fundição em uma pessoa do trabalho atoral, elaboração dramatúrgica com uma capacidade de encenação provocativa. Aliás, escrever essa resenha se faz um desafio frente ao compromisso que as palavras carregam. Pouca coisa pode seguir sem tantos abalos.

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LUCAS ÁVILA/DIVULGAÇÃO

O corpo de uma mulher negra que dispensa ser enquadrado pelo pensamento moderno que dignificou o humano. Sua origem não é essa, ao menos. A predileção da atriz, dramaturga e encenadora surge quase fabular. Nascer do ventre das partículas fornece a aptidão de um corpo híbrido não antagonista, dialético ou revolucionário. O que ativa essa condição é a coexistência de uma voz. O corpo feito fantástico pelas lentes de um deslumbre encarnado.

Nada disso pressupõe a aquietação de ideias. A circularidade do fluxo se faz em função desse encontro atrevido. A voz habita o corpo, dele verte o verbo. A palavra é comprimida na realidade de sua condição e, portanto, provada.

Tal descoberta se configura no instante mais precioso ao teatro. Os quase 60 minutos são gastos em esfregar a presença de uma atriz no presente. Com um argumento fresco, ela e a plateia se tornam parceiros na medida em que também se tornam objetos de observação da voz incorpórea. Os instantes não dependem de reações, pois não parece haver nada programado no arcabouço do público. Não se trata de uma voz alienígena, ou de uma incorporação espiritual, tampouco o método de representar um personagem. O que está proposto exige uma interlocução a descobrir. Conquistar esse estado em um espetáculo  no qual, para que aconteça não se exige um acordo tácito de ideias e formas de pensamento entre público e atriz não parece fácil nem simples. Tudo isso pra dizer, que o compromisso é com o real. O real do palco.

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LUCAS ÁVILA/DIVULGAÇÃO

Em Vaga Carne, tem-se a tríade Grace como chave da performatividade, capaz de ligar e desligar procedimentos ao desistir de abordagens tradicionais como, por exemplo, encarar um fato social qualquer pautado pelo seu corpo social, como racismo ou machismo, e submetê-lo a um ponto de vista determinado organizando-o num trilho narrativo/histórico/dialético. (Esta escolha, não é má, mas em geral, percebe-se pulverizada como método criativo sobretudo por grupos da cidade. Se considerados ativistas e engajados, o volume de suas produções faz os trabalhos carregarem um relevo esteticamente comum. Talvez isso seja fruto do prazer que a justiça dá para esses artistas, e do prazer que a justiça dá ao assisti-los. A justiça tem dessas ironias.)

Na peça de Grace, a condição hostil de agressão e violência é um impulso no vaguear da voz, sem que sejam citadas. Ao sabor do tempo, ela apreende pouco o que inflama o humor social mas prefere circular energias poderosas. Por isso, talvez, extraia do conflito a iguaria de toda a sua encenação. Ela equaliza com as ideias nas curvas e secreções insuspeitas de seu corpo.

A voz tanto importa quanto seu silêncio. A falta de protagonismo forçada, a cadeira vazia, o refletor sob o foco como um objeto aglutinado de função e materialidade. Ao afirmar-se artista do presente, Grace esvazia o sentido da representação em prejuízo do futuro do teatro. Artistas, cuidado com ela!

 

 

 

 

 

Como é bom a justiça por dentro.

 

 

 

 

 

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Grace Passô