Uma ‘Oração’ para comer criancinhas

Uma ‘Oração’ para comer criancinhas

Leandro Nunes

07 de fevereiro de 2017 | 17h04

Como um bom país criado sob a educação católica e cristã, as formas de alegorias e narrativas criticamente aceitas e promovidas no Brasil  são mais bem aceitas e compreendidas se puderem ser relacionadas às grandes parábolas e sagas retratadas na Bíblia.

Se o Concílio de Trento no século XVI foi um efeito colateral da Reforma Protestante, o objetivo do encontro era discutir as formas de representação do Cristo, com o intuito de reafirmar a soberania da Igreja. Isso passa pela pinturas que distribuíam dor e sangue em suas obras até a exclusão da sensação de sofrimento – e da Cruz – como na Deposição de Pontormo, já no último fôlego do Renascimento.

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Portanto, falamos de texto e imagem cuidadosamente articulados que formam a consciência de cultura e comunicação. A Oração, texto de Fernando Arrabal arremata a olhar de um não cristão diante do encontro com o texto bíblico. Mas não se trata de qualquer não cristão.

Na montagem de Luiz Campos, a primeira rubrica da peça é abandonada ao não representar o assassinato de uma criança, o que se potencializa quando Fídia (Giovanna Marcomini) arrasta um corpo adulto inanimado. Independente do que está por vir, a primeira cena já compete em elevar a discussão.

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Na montagem de menos de 60 minutos, a corporeidade da jovem dupla (Nathalia Nigro) fica sob investigação, tanto pelo figurino masculino de Giovanna, suas feições e tom quanto pelas nuances fantasmagóricas e maquiagem de Nathalia. Escolhas que especializam o discurso falado antes que ainda aconteça, pois são sujeitos indefinidos entre si, embora orbitem o mesmo ambiente realista, com bancos, mesas e cadeiras.

Talvez por se tratar da discussão de ideias sobre a fé como propulsor natural da moralidade, tudo pode ser permitido na encenação, entretanto as escolhas iniciais de caracterização e disposição dos elementos cênicos oferece um arcabouço de possibilidades não apenas a serviço do texto de um grande ator, ou para ampará-lo, mas para atestar uma rara assinatura, levando em conta o tempo de existência da companhia Los Puercos de Teatro, fundada em 2015.

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Quando é a vez do texto, o terreno já está preparado e vem aquecido no surpreso elenco. Por meio de recursos narrativos, a peça faz uma rápida incursão pela história de Jesus, e suas implicações na história real e mitológica. Um elemento formado por tecidos, semelhante a um manequim trata de parir apetrechos que auxiliem no resgate das histórias. Um alívio ao trazer o absurdo sob a ótica de duas criaturas que decidem se tornar boas. A movimentação criada, ainda que aparentemente contida no cenário, desvela as dúvidas, surpresas e o absurdo do texto que circula ora na face das atrizes, ora são jogadas a plateia. Como numa escada, as ideias circulam em um movimento ascendente, impetrado pela dinâmica da dupla.

Ao mesmo tempo em que trabalha com uma potente dramaturgia e encenação, a direção insiste colar criações de outras esferas, como um texto escrito por Gregório Duvivier e lido por Sérgio Mamberti. Não se sabe o que a direção quis: se foi complementar a discussão, atualizar, se achou o tom da crônica interessante, atual e irônica, se pensou que Arrabal não bastaria, se achou que o público conheceria mais Duvivier e Mamberti do que Arrabal. Se achou que o texto de Duvivier se igualava em tom e potência ao de Arrabal e que, portanto, deveria dialogar ou ser colocado em tom de igualdade. Que novo elemento o texto acrescenta a dramaturgia, direção e elenco construídos? Ela aprofunda, cria fraturas, impulsiona, catapulta? Não se sabe também se a direção achou que a peça precisava de um comentário objetivamente e brasileiro sobre o presente, se achou que a dupla de atrizes não continha um alfabeto cênico capaz de dialogar com o universo proposto pela dramaturgia e trazido em sua encenação, se precisava preencher o tempo, se sobrou tempo. Por quê??? São todas questões que merecem reflexão pela responsabilidade de assumir essa escolhas. Os riscos estão todos no dia a dia da criação, entretanto é preciso observar o que pode prejudicar o desempenho das atrizes (será que elas precisam de mais uma voz em off reafirmando a atuação que entregaram?), a força da pesquisa e a própria razão de escolher a obra de Arrabal, e por fim, o destino de um jovem diretor.

 

 

 

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