Teatro Contadores de Mentira encontra nas raízes afro a energia vingativa de Medeia

Teatro Contadores de Mentira encontra nas raízes afro a energia vingativa de Medeia

Leandro Nunes

26 Junho 2018 | 18h40

Quando o Teatro Contadores de Mentira afirma, ao fim do espetáculo que decidiu se sediar na cidade de Suzano trata-se de uma resposta a uma falácia quase tácita do teatro comum de São Paulo de que qualquer grupo, de qualquer lugar do Brasil, precisa se apresentar na capital paulistana  — em qualquer das franquias teatrais badaladas daqui —  para se manter vivo e visto.

Na temporada na Funarte, a peça Curra – Temperos sobre Medeia, criada há dez anos entra no terreiro em uma celebração orixá, antes de mergulhar na tragédia grega. Na história, Medeia foi trocada pelo marido Jasão que decidiu casar-se com a princesa Glauce. Sem assistência e com dois filhos, a mulher bárbara quer vingar-se do homem assassinando as crianças.

Na montagem repleta de códigos de uma liturgia sagrada, é preciso atentar-se aos detalhes. A invocação para o canto que narra a tragédia se utiliza do épico e do processo de incorporação, ou vibração (também não seria épico?), de entidades no terreiro afrobrasileiro para olhar os arquétipos das personagens de Medeia, Glauce, Jasão, dos filhos e do rei Creonte.

Na peça, cada um relaciona-se a partir de seu alfabeto corporal e sonoro que passa a demarcar o futuro jogo jogo teatral, na mesma ordem em que dispensa legendas ou indicações. Medeia ruge como Iansã na tempestade, Glauce desliza e seduz a pele como as águas de uma cachoeira, — feito Oxum — as crianças, os erês, e esse Jasão-Xangô.

Foto: Contadores de Mentiras

Já Creonte, o rei de Tebas, senhor do terreiro, um exú entre mundos, autoriza que a mulher não seja exilada imediatamente.

Na encenação, essa morfologia se mostra fundindo mito grego e mito africano, sem, e o mais interessante, que os arquétipos apresentados não sejam interpretados como seu único fim. Em Curra… não prevalece o desejo fetichista na representação, principal ausência na produção teatral local.

Explico: a forma com que grande soma de projetos teatrais em São Paulo foi e continua sendo formatada parece ter se inspirado mais no entusiasmo do profissional que trabalha para maximizar ganhos e minimizar prejuízos e que cliente não é uma variável presente. A palavra choca? Só não pode achar que plateia significa um conjunto de pessoas que se reúne no teatro com talento para disfarçar caso o espetáculo que esteja assistindo seja equivocado.

Mas o que acontece em Curra… é que a peça pega emprestado a corporalidade afro e o mito dos Orixás, fundi-os no mito grego e decola com a narrativa sem a necessidade de aproximações e metáforas pouco elaboradas. O segredo talvez, está na aproximação da Antropologia, que prescinde dessa exatidão com que a modernidade enxerga a história, para se abrigar na síntese das energias necessárias à tragédia e ao evento teatral.

Nesse sentido, com um texto proto-feminista, Curra… cria laços em que posiciona a Medeia-Iansã no desconforto criado por uma sociedade patriarcal. Durante as histórias, criam cenas com sombras e uma refeição está sendo preparada. Nela, a esposa abandonada de Jasão convida seus inimigos para um jantar, direto da plateia, todos eles homens. Enquanto todos comem anuncia-se que todos morrerão envenenados. A comida gostosa, desce seca na garganta.

É preciso apontar que a peça revê o mito mais que apenas vesti-lo em um roupagem afro. O cozinheiro que incorpora Jasão, que muitas vezes surge interrompendo o ritmo da peça, em cenas dispensáveis, mas sempre o homem que narra, que olha a estrutura de fora. Ele é o único. Nenhum dos outros consegue ver além. Já Medeia, que planeja sua vingança, uma ira que descola a mulher da emoção e também a arrasta longe do eixo épico da montagem, é reposicionada como figura dramática, em qualidade diferente dos demais. Nisso falta diagnóstico sobre a intenção e se há, por parte da direção e do elenco.

Foto: Arturo Gamboa

Assim, no presente momento do mundo, cheio de investidas feministas, as acusações de assédios na indústria cultural e a Argentina recentemente legalizando o aborto, não é ingênuo desconfiar que a Medeia de Curra… possa mais.

Não se trata do empowerment comercial tolo, nem de interpretar sua tragédia como se conhecesse o final. Trata-se de conceder a Medeia a sutileza de uma autoconsciência que, se necessário, exige a retenção do posto de narrador do cozinheiro, ou talvez nem precisa ser revelado cenicamente, mas é imperativo que se destacado na estrutura.

Trata-se de pintar uma fagulha a mais de complexidade nos olhos de Medeia. A frase do cozinheiro sobre o banquete em que todos morriam é um tipo de autonomia que a personagem conquistou faz tempo. O resultado é que a vingança, e sua sedução, revelarão o reconhecimento do pacto feito com a plateia, lá no início da peça.

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