‘Revoltar’ encurta a distância entre o delírio da mente e a razão do coração

‘Revoltar’ encurta a distância entre o delírio da mente e a razão do coração

Leandro Nunes

07 Setembro 2018 | 15h45

Quando falta empenho no palco, o Teatro não pode ser responsabilizado pela criação espontânea e sem filiação de subterfúgios que nascem na cena.

A discussão sobre a qualidade das produções de São Paulo, debate muito criticado por alguns artistas, aponta para outro lugar igualmente desconfortável. Não é raro ver que as propostas já começam falhando em se apaixonarem por si mesmas. Contra Narciso, não há espelho, nem plateia, que aguente.

FOTO: Keiny Andrade

Na última semana em cartaz, o espetáculo Revoltar – Memórias de Ilhas e Revoluções, constrói uma experiência cênica pela memória, inspirada na história de Fidelina González, soldada, atriz, dramaturgista, tradutora e professora cubana – que vivenciou a Revolução e morou no Brasil. A peça de Dione Carlos, a partir da obra de Eu fui soldado de Fidel: autobiografia de Fidelina González, de Renata Palottinni, remonta, o intenso e incansável potencial da criação de teatro em grupo, que, nutre uma paixão sincera pelo poder artesanal contido na invenção e na imaginação naturais da arte teatral.

Já que falamos de memória, não posso ignorar a primeira vez em que estive no Galpão Folias, para assistir Folias Galileu (2014), na saudosa direção de Dagoberto Feliz (Quando ele volta a encenar?). Por muitos motivos, o dinamismo desta criação fortalece a montagem com integrantes da Cia Livre.

A peça que estreou originalmente no Porão do Centro Cultural São Paulo talvez tenha sido a primeira produção que não tenha se perdido na complexa acústica e arquitetura do ambiente, desde que ele abriu reformado em 2017. Eu que vivo reclamando do perfil de peças e seus textos inaudíveis apresentados naquele espaço, acabei assistindo Revoltar no Folias mesmo.

É interessante apontar que a peça assume o aspecto da memória para além da experiência narrativa, como tema, e elabora uma trama sem pontas soltas com a dramaturgia, o elenco, direção, luz, música, direção de arte e cenografia. Por mais que o teatro contemporâneo tenha assumido a fragmentação como estilo, por vezes esse caminho só demonstra o desejo de implodir estruturas narrativas antes mesmo de identificá-las em si e com a plateia. Na montagem de Vinicius Torres Machado, a peça sublima essa energia que mais seduz e explica do que concretiza, para identificar as forças criativas em prol da história de Fidelina.

FOTO: Keiny Andrade

Nesse sentido, a peça é incansável em construir uma outra forma de encarar as memórias da mulher. Na verdade, Revoltar descontinua o entendimento do conceito de memória como algo apenas relacionado ao passado ou a um dos processos de organização do cérebro para instaurar em suas ‘ilhas’ um ambiente tridimensional para elas. Óbvio que isso deveria parecer natural à arte teatral, já que temos a materialidade posta em cena. Mas na peça, a memória da personagem deixa de ser um sinalizador da regressão ou destino, muito menos caminho. Tem-se na atuação, principalmente, a articulação de uma matéria impregnada de sentimento. As lembranças importam menos como comprovação, mesmo que não abandonem seu diálogo histórico. É aqui que a fragmentação se oferece – não aquela travestida de estilo – à cabeça do espectador como fração da vida que impulsiona a imaginação.

Inclusive, o primeiro ímpeto de escrever sobre Revoltar foi como o de tentar puxar os fios para entender de que é feita a trama.

O conjunto de ilhas na cena e sua movimentação dão conta de desdizer também essa mania de memória fragmentada mais relacionada às máquinas que aos humanos. O guarda-roupa que desperta o ditador, grande cena, e seus gritos de ‘Arquiva! Arquiva!’ apontam que o afeto e os sentimentos são chaves que despertam momentos mas também que podem ajudar a sepultá-los.

Ao elenco incansável (Donizeti Mazonas, Edgar Castro, Lúcia Romano, Sergio Siviero e Sofia Botelho) sobra energia para transitar com consciência entre as toda a gramática do teatro popular, música, da dança, apostando no dinamismo capaz de desencadear memórias, no palco e na plateia. Não é possível relacionar-se com a obra sem que se ofereça lembranças íntimas, diante de tanta fertilidade.

O espetáculo termina neste domingo, 9. Gostaria de ver Revoltar circulando na programação de festivais por todo o país. É registro da generosidade com artistas e a plateia. De que, às vezes, o delírio não precisa estar na mente para ser “imaginado” pelo coração.

Mais conteúdo sobre:

Cia Livre